A China no final dos anos de 1990 já vinha dando mostras de estar se consolidando num dos maiores mercados consumidores do Planeta. Sua atração por investimentos externos diretos era a maior de todos os países emergentes no começo dos anos 2000, tendo inclusive superado os EUA, maior economia mundial. Sua balança comercial passou a crescer de forma significativa a ponto do governo estadunidense pressionar o país asiático para que realizasse uma valorização de sua moeda. No agronegócios, tema que nos interessa neste artigo, os chineses passam a ser grandes importadores, especialmente de soja. De tal forma que a China passou a ser uma referência quando da formação dos preços diários em Chicago. Se nos anos de 1980 era a ex-URSS que assumia este papel, neste início de século XXI temos a China ocupando este espaço. A diferença gritante é que a ex-URSS somente conseguia assumir tal posto mediante empréstimos dos EUA, direcionados para a compra de grãos daquele país. Já a China não depende deste tipo de mecanismo.
O desafio é descobrir até onde a China chegará neste contexto de grande importadora de soja. A julgar pelas necessidades potenciais do país, hoje com aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas, sua demanda tende a crescer por muitos anos. A tal ponto que o USDA, de forma conservadora, projeta importações de soja na altura de 30 milhões de toneladas para 2011 quando em 2003 os chineses já teriam comprado mais de 22 milhões de toneladas de grãos de soja. Ou seja, no ritmo que as coisas vão a China estará importanto, se possuir poder aquisitivo para tanto e em não surgindo um substituto melhor para a soja, ao redor de 50 milhões de toneladas da oleaginosa no início da próxima década. Isto representa 25% da atual produção mundial da oleaginosa.
Na prática, o problema chinês é relativamente simples. Sua economia vem crescendo a taxas médias ao redor de 10% ao ano, fato que oferece melhores condições de consumo a um número cada vez maior de sua população. A soja continua sendo a oleaginosa mais competitiva no que tange a oferta de farelo, rico em proteína, e óleo vegetal comestível. No entanto, a capacidade produtiva chinesa, até o momento, esbarra em problemas de solo e hídrico. Com isto, há anos a produção chinesa estaciona ao redor de 16 milhões de toneladas anuais contra um consumo (medido pela trituração realizada) que teria crescido 119% nos últimos cinco anos, tendo passado de 12 milhões de toneladas em 1999 para 26,3 milhões de toneladas de soja em 2003.
E isto, mesmo com o crescimento na produção interna de outras oleaginosas, óleos e farelos. Na prática, a produção chinesa das demais oleaginosas é lenta e insuficiente. No que diz respeito às sete principais oleaginosas, a mesma está projetada em 47,7 milhões de toneladas para 2003/04, sendo 16 milhões em soja. A média produzida entre 1998/99 e 2002/03 foi de 45,1 milhões de toneladas sendo 15,3 milhões em soja. Ou seja, as outras seis oleaginosas (colza, girassol, amendoim, caroço de algodão...), que representavam 66% do total, há cinco anos, ficam exatamente no mesmo nível em 2003/04. Ou seja, com uma participação estagnada.
No caso da produção de farelos, o volume dos oito principais subprodutos das oleaginosas chegou a 37,1 milhões de toneladas em 2003 após 30,3 milhões em 2000. Destes totais, o farelo de soja representava respectivamente 57,4% e 45,2% do total. Ou seja, a participação do farelo de soja cresceu acima de 12 pontos percentuais nos últimos quatro anos em detrimento dos demais farelos. Isto, graças ao aumento nas importações de soja para trituração local. De fato, a China esmaga hoje mais de 26 milhões de toneladas de soja contra 16,9 milhões em 2000. O consumo geral dos oito farelos considerados alcança hoje 36,8 milhões de toneladas naquele país, sendo 20,5 milhões em farelo de soja.
Quanto aos 17 principais óleos vegetais e gorduras, a produção chinesa atingiu a 16,4 milhões de toneladas em 2003. Apenas os oito principais óleos vegetais representaram 73% deste total (12 milhões de toneladas) contra 11 milhões de toneladas em 2000. A soja contribuiu respectivamente com 4,5 e 2,7 milhões de toneladas.
Neste contexto, a participação da soja brasileira nas importações chinesas vem crescendo rapidamente. Em 2003, o Brasil exportou 6,1 milhões de toneladas de grãos de soja para a China, país que já é nosso segundo maior comprador, atrás da União Européia que registrou compras na altura de 11,5 milhões de toneladas. Nosso país igualmente vendeu 541.000 toneladas de óleo de soja para os chineses no ano passado. Do total exportado pelo Brasil, as compras pela China representaram 29% em grãos de soja e 22,5% em óleo no ano de 2003. Há cinco anos atrás, em 1999, esta participação era de apenas 10,6% nas exportações brasileiras de grãos de soja e 9,5% nas de óleo. Lembramos que a China praticamente não importa farelo de soja, preferindo comprar o grão e triturá-lo localmente, agregando valor.
Enfim, o mercado chinês ganha ainda mais importância, no momento, pois não impõe nenhuma restrição à importação de soja e derivados de origem transgênica. Assim como, aliás, cerca de 75% do mercado europeu e 90% do mercado mundial igualmente não o fazem. E, como sabemos de prática, a soja transgênica tem sido a redenção, pelo lado econômico, dos produtores brasileiros em geral e gaúchos em particular.