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"Bush joga bomba e o povo come fogo"


Valdo França

“A cada bomba que o Bush joga, o povo come fogo”

Valdo França

Esta frase acima de José Simão, resume e conclui o disparate, ingenuidade e incoerência da proposta do Presidente Lula apresentada nesta ultima reunião do G8. É lamentável a idéia de formar um fundo global contra a miséria, a partir da taxação da fabricação e do comércio internacional de armas. Somente a carência de ecologistas e pacifistas tarimbados na assessoria do presidente poderia explicar tamanha insensatez política. Torna algo detestável, deletério e imoral como a industria bélica, em algo simpático e legitimo.

A lógica perversa de quanto mais armas comercializadas, mais recursos para o “Fome Zero Global” contraria o bom senso e invalida o esforço da humanidade na árdua busca de vencer a barbárie. Invalida as religiões, as filosofias e a arte da política no seu sentido divino de prover os povos e nações em suas necessidades.

Se o fim justifica os meios, porque não taxar a pornografia, a prostituição, a exploração do trabalho infantil, o tráfico de animais silvestres, o trabalho escravo, a poluição, o seqüestro, o roubo, o trafico de drogas e outros absurdos do mesmo naipe moral?

Lula poderia estar promovendo a instituição da famosa Taxa Tobin, a qual prevê a taxação de 1% do movimento internacional dos capitais voláteis. A “Taxa Tobin” é defendida por economistas do PT, ongs e movimentos sociais planetários, como forma compensatória do capital especulativo para o equilíbrio e justiça do desenvolvimento econômico social mundial.

Acreditar que o G8, maiores beneficiários do belicismo e do desequilibro nas relações comerciais entre paises pobres e ricos, possam engrossar o “Fome Zero Mundial” é pura ingenuidade. O protecionismo sempre foi e será uma ferramenta para preservar setores da economia dos paises ricos. Nunca houve e jamais haverá colher de chá na relação comercial entre pobres e ricos. Quem pode mais chora menos, diz o provérbio popular. Os paises pobres terão que fazer sua parte de forma competente no embate político e econômico com o G8. E para isso se concretizar será necessário compreender que, entre as causas mais importantes da pobreza está a ignorância, a carência de educação, cidadania, ética e patriotismo imperantes nestes chamados paises pobres, incluindo o Brasil.

Muitos dos chamados “paises pobres” são grandes detentores de jazidas minerais, ricos em diversidade biológica, solos, climas, paisagens, recursos cênicos naturais e culturais raros para o florescimento do turismo e da agropecuária. A maioria desses países não vivem o dilema dos terremotos, maremotos, tufões, nevascas e outras intempéries naturais limitantes e encarecedores da produção e da vida humana.

No Brasil, concomitante com as riquezas naturais, convivemos com altas taxas de incompetência, corrupção e banditismo incrustados na cultura das instituições políticas, no serviço publico e também no setor privado. Muitas empresas “heróicas” do Programa Fome Zero”, devem milhões a previdência, e os bancos acharam um jeito “legal” de pagar menos imposto de renda que outros setores da economia.

O programa “Fome Zero” se tornou instrumento de “marketagem” e propaganda barata para estilistas, manequins, socialites, políticos, esportistas, artistas e empresários.

Melhor que parlamentares doarem salários ganhos na convocação extraordinária, seria a diminuição definitiva do período de férias de 90 dias e o valor do salário de R$ 12.700,00 a patamares próximos a moralidade e compatíveis com a realidade do trabalhador brasileiro. Aí sim os parlamentares estariam dando um exemplo raro de bom caráter no meio político.

Melhor que a CEF instituir a “Loteria da fome”, seria a informação massiva para que o pobre saia da ilusão e do engodo das loterias, que subtrai recursos e acentua a fome e a desnutrição dessas populações .

Super mercados e bancos poderiam estar colaborando de fato e eticamente com o “Fome Zero”, contratando funcionários suficientes para o bom atendimento de sua clientela. Afinal quem não amarga periodicamente o tempo precioso com as irritantes filas dos bancos e caixas de supermercados.

A CEF e o BB poderiam dar exemplos de ética e responsabilidade social para outras empresas inadimplentes, pagando suas dívidas a Previdência Social, e como bancos oficiais já poderiam ter baixados suas taxas de juros e incrementado o micro crédito solidário. Essas ações seriam nobres, competentes, eficazes e patrióticas, comparadas as simplórias arrecadações e doações de alimentos.

A iniciativa privada deve atuar como achar melhor, doando e criando programas, mas é dever do governo e da sociedade, enaltecer as iniciativas corporativas verdadeiramente éticas e responsáveis que buscam organizar, educar, capacitar, animar e prover as comunidades carentes de infra-estrutura e condições suficientes para transformações e bem estar.

É bom lembrar que a simplória chamada “mobilização social contra a fome”, com doação e distribuição de alimentos, sempre foram e serão insuficientes para acabar com a fome histórica causada pela apartação social. Movimentos e programas caritativos como os do Betinho são simpáticos e importantes na minoração do sofrimento humano, mais jamais substituirão o estado na geração das premissas que possibilitam a inclusão social.

Estas “mobilizações contra a fome”, excessivamente centradas em pirotecnias de marketing e propaganda, podem causar desserviço pedagógico às massas, na medida que retardam a sua compreensão política da problemática, dificultando assim a busca de um verdadeiro pacto social, distanciando as ações verdadeiras para acabar com a miséria.

O papel do governo é organizar o estado, acabar com a incompetência e a mamata reinantes e fomentar o desenvolvimento socialmente justo e sustentável. A política de estabilidade monetária, as reformas estruturais nas áreas tributária, previdenciária, política, judiciária e trabalhista, são decisões duras, porém necessárias para o pais achar o caminho equilibrado do crescimento, distribuição de renda e justiça. A unificação dos programas sociais para evitar sobreposição de esforços e recursos, a exigência das contrapartidas reais por parte dos beneficiários e a coordenação política integrada das ações compensatórias também são mostras de que o governo começa acertar o rumo de suas ações.

O caminho no sentido inverso ao apartaid é longo, árduo e minado por conflitos e jogos de interesse. As vitórias dependerão principalmente da autoridade e legitimidade do presidente e seus ajudantes, sendo fundamental então que suas imagens sejam preservadas. Para isso acontecer, as operações grosseiras de marketing e propaganda duvidosas e discutíveis como a taxação do comercio de armas para combater a fome, devem ser colocadas distantes da agenda e discurso do governo.

Valdo França é engenheiro agrônomo, consultor nas áreas de meio ambiente, agricultura ecológica, mediação e arbitragem. É Fellow da Ashoka Innovators for the Public, fundador da ELAE - Escola Livre de Agricultura Ecológica, organizador dos Simpósios "Alternativas Contra a Fome", autor a quatro mãos do livro “Agricultor Ecológico” - Ed. Nobel, Revista “Alternativas contra a fome - Inst. Polis e Manual de Agricultura Ecológica - ELAE. [email protected]

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