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Artigo: A agricultura de especialidades de alto valor do pequeno produtor


Marcus Andreas Weichert

O Estado do Rio de Janeiro figura, segundo dados fornecidos pelo Instituto Biodinâmico e pelo BNDES, como o quarto maior produtor de produtos orgânicos do país, com 120 produtores certificados. Parece-me que este dado revela a importância dos agronegócios alternativos para o povo fluminense. O Rio de Janeiro tem características que não permitem competitividade agro-econômica com outras regiões do país, se considerarmos as culturas de exportação, as commodities. O negócio do Rio de Janeiro são as culturas de alto valor agregado, ou como gosto de chamar, as especialidades. A agricultura orgânica é uma delas.

Temos assistido ao bombardeio de boas notícias sobre o agronegócio brasileiro. Vinte bilhões de dólares de superavit comercial ao final de 2002 não é mesmo para qualquer um. As cadeias produtivas que proporcionam estes resultados têm como base a tecnologia e recursos advindos da chamada Revolução Verde. Criada como uma solução para a eliminação da fome no mundo, a Revolução Verde foi realmente eficiente no que tange ao incremento da produtividade e conquista de novas fronteiras agrícolas, redundando em altos volumes de produção. Mas o excedente produzido não acabou com a fome nem distribuiu riqueza da forma que se esperava. Pelo contrário, o sistema privilegia aqueles que tem grandes propriedades com ganhos de escala.

A Revolução Verde, no entanto, não se cansou nem terminou. Tem o seu devido lugar na economia e deverá continuar a cumprir os seus importantes objetivos. Mas um novo sistema vem se desenvolvendo e considera os pequenos produtores, excluídos daquele sistema.

Este sistema se adequou ao perfil produtivo do Estado do Rio, onde predomina a estrutura de produção familiar. O pequeno agricultor, o familiar, tem algumas peculiaridades interessantes. Sua unidade produtiva não tem recursos financeiros para adquirir equipamentos e tecnologia. Portanto, este produtor tem que recorrer aos recursos que a própria natureza lhe deu e procurar maximizar seus resultados. Planta e tenta colher sem desrespeitá-la. Se a isto forem considerados mais alguns aspectos técnicos, temos o que se chama de produção agroecológica, orgânica ou natural. Não vamos entrar em detalhamentos de conceitos e definições neste artigo, mas, o produtor orgânico deve ser considerado como tal se ao processo produtivo ainda considerarmos que sua atividade preenche valores sociais e ambientais corretos. E isto é de alto valor na ótica de quem compra os produtos.

A economia do orgânico cresce a uma taxa de 20% ao ano no Brasil, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), movimentando entre US$ 220 e 300 milhões por ano. O Estado do Paraná tem o maior número de produtores orgânicos certificados e cadastrados, seguido pelos Estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em contato com o Dr. Franz-Josef Feiter, representante do governo alemão na OMC (Organização Mundial do Comércio), fomos informados que na Alemanha, país de destaque em produção e consumo orgânico, já ocorre saturação da oferta em algumas linhas de produtos, levando a queda de margens. A demanda é caracterizada por um nicho da população. Isto serve de alerta a aqueles que pensam que a produção orgânica no Brasil deve se destinar prioritariamente à exportação.

O Brasil “orgânico” se destaca na produção de frutas tropicais, derivados de banana, fécula de mandioca, castanha-de-caju, feijão azuki, gergelim, especiarias (canela, cravo-da-índia, pimenta do reino e guaraná), e óleos essenciais. Em breve exportaremos também carne orgânica e cachaça. Não podemos esquecer do açúcar orgânico, do palmito, hortaliças, milho e soja. O sistema orgânico de produção é, porém, naturalmente desenhado para o pequeno produtor. Nas cidades a demanda atual é maior que a oferta. O espaço nas gôndolas dos supermercados para esses produtos cresce a cada dia e a rentabilidade para o produtor e o varejista acima de interessante. Aliás, este é um tema que devemos alertar. O varejista está com o olho muito gordo e em muitos casos prejudicando o avanço deste segmento.

Havendo organização e apoio a grupos de produtores, agroindústrias, associações de produtores e cooperativas, poderemos desenvolver pólos ou clusters de produção orgânica em certas regiões de economia de subsistência e de base familiar. A comercialização é ainda uma etapa crítica do processo. A produção segue uma técnica elaborada, sistematizada e o mais importante, certificada por organizações que quando idôneas e reconhecidas, confirmam o valor extra ao produto. Há de se desenvolver ainda tecnologias modernas de produção orgânica. Pouca pesquisa tem sido feita e divulgada.

Em setembro de 2003, o Rio de Janeiro irá sediar a Biofach, conferência internacional sobre o assunto. Este evento poderá ser um divisor de águas para o desenvolvimento da agricultura orgânica no Brasil e em especial para o Rio de Janeiro, trazendo informações, parcerias técnicas e oportunidades comerciais.

Neste contexto, a Secretaria de Agricultura do Rio estará lançando ainda neste ano um programa exclusivo para o setor, o “Cultivar Orgânico”, que se destina à criação de alternativas que visam o desenvolvimento do segmento no Estado, gerando trabalho, renda e elevando a auto-estima do produtor familiar fluminense. Será mais uma chance do pequeno ser reconhecido como de grande valor, produzindo especialidades.

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