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Café - Separação de Famílias


José Eduardo Reis Leão Teixeira
A Cafeicultura de arábica envelhecida, doente e em processo de agonia, merece algo digno e profissional para se reerguer resgatando a presença e respeito que já possuiu.
Há muitos anos seus dirigentes, sempre os mesmos, se alternam no poder e não mudam o discurso obsoleto, ultrapassado e improfícuo. A herança da inércia, incapacidade e impotência se faz presente no comando desta atividade, há décadas, necessitando ter um ponto final.
Dívidas, dívidas, dívidas...e mais nada, sendo que estas geralmente  são conseqüências de má gestão, a principio e em sua maioria, provocada pela ausência de gerenciamento dinâmico e eficaz dos produtores e potencializada pela visão míope dos dirigentes, que se recusaram a alertar para os problemas que iriam surgir, cientes destes, porém, não conscientes, por viverem alienados em relação às tendências e perspectivas nacionais e internacionais .
Não adianta culpar o mercado internacional, prova disto é que o preço médio do café nos últimos anos esteve em valores muito superiores à média. Culpar o governo também não adiantará, apesar de ter sido o responsável pela manutenção da valorização do real em relação ao dólar, prejudicando potencialmente os produtos de exportação.
Como águas passadas não movem moinho, vamos em frente.
É imperativo fazer algo e acredito que a solução passe a ser mais radical do que poderia supor. Será necessária uma reestruturação no topo deste comando a partir da base, ou seja, provocada pelos produtores.
O atual modelo de gestão e de gestores há muito não mais se procede, sendo necessário mudá-lo radicalmente.
Errar é humano, mas persistir no erro extrapola o aceitável.
São inúmeras as opiniões, estudos e análises publicadas no sentido de abastecer de informações sobre os caminhos a serem seguidos pela cafeicultura, que não se justificam erros e omissões responsáveis por esta situação de colapso. Mas, o que se poderia fazer por esta atividade? É exatamente sobre isto que procurarei focar de forma bem objetiva.
Vamos comparar o que atualmente ocorre diante do cenário de crise com a GM, a gigante automobilística nos EEUU, atolada em prejuízos bilionários.
Após o pedido de afastamento de seu presidente a empresa possivelmente será dividida em duas, sendo que uma ficaria com a parte saudável e a outra ficaria com a parte contaminada. Assim, o atual controlador terá como efetuar planejamentos e ações distintas procurando as melhores soluções.
Este modelo de segmentar uma empresa em duas ou mais é comum a casos desta natureza e produz resultados.
Pois bem, isto possivelmente seja o que deva ocorrer com a cafeicultura considerando arábicas e robustas distintos, sendo fato inconteste.
O arábica seria a parte contaminada ou com graves problemas e o robusta a parte ainda saudável.
Não adianta tapar o sol com a peneira, por se tratar de realidade. Realidade, que os dirigentes se recusam insistentemente a reconhecer como verdadeira, desde há muito. Realidade, que atende principalmente àqueles tomadores de empréstimos, que por finalidade visam suas prorrogações “ad infinitum”, fazendo da paternidade governamental um meio de vida amparada, quando necessário, pelo clamor dos menos favorecidos nas fatias do bolo, pois a estes sobram apenas migalhas e por dependência do sistema quanto ao receio das migalhas cessarem, tornam-se concordantes involuntários dos desejos superiores; vaidade, sede de poder, ou qualquer outro adjetivo que se possa dar a isto não mais interessa, o momento é por mudanças.
O arábica, enfermo há uma década, recusou-se ao tratamento a que deveria ser submetido tendo sua situação piorado aos extremos. Caso, juntamente com o robusta permaneça sob o mesmo teto neste modelo de gestão, ultrapassado e não condizente com a realidade, provocará a contaminação a este e para que isto não ocorra devem se separar por completo, além do que, a rota de colisão e extinção permaneceria inalterável.
Havendo a separação radical e necessária, tendo por administradores gestores dinâmicos, eficientes, comprometidos com a nova visão e ideal de superação, seriam realizados diagnósticos precisos diante dos cenários apresentados e assim elaborados planejamentos estratégicos visando o desenvolvimento destas, fazendo-as convergirem ao mesmo ponto final, porém, com trajetórias distintas. Isto significaria criação e estabelecimento de metas e objetivos de duas atividades correlatas, porém, separadas em sua gestão, bem como políticas distintas de sustentação governamental.
Tal ação provocaria uma concorrência por eficiência na representatividade, ao contrário de corrida produtiva, gerando mudanças construtivas com visão ao longo prazo focando os objetivos comuns.
Ao arábica seriam priorizadas ações específicas diante da realidade vívida. Certamente, sob efeitos de um tratamento retraído e engessado, mas necessário até se reerguer. Não haveria crescimento imediato, podendo possivelmente retrair, mas sobreviveria recriando a condição de competitividade.
Ao robusta, isolado e independente para evitar ser contagiado, seriam criadas ações de desenvolvimento  e crescimento ordenado. Certamente, com maior mobilidade e desenvoltura.
Toda a estrutura de apoio a estes, principalmente as cooperativas de produção, contrariamente ao atual modelo onde em sua maioria focam com prioridade o crescimento próprio e individual, como se estivessem numa competitividade para avaliar qual seria a maior entre as demais ao invés de a melhor, deverão ter como objetivo que seus associados sejam os melhores e maiores, ou seja, o foco passaria a ser desenvolvimento financeiro e econômico do associado.
O modelo atual é um paradoxo, pois o que se percebe é o fato das cooperativas em sua maioria desenvolverem, algumas menos, outras mais e os cooperados em plena retração e falência.
Por outro lado, em algumas destas, abusos e ilegalidades tais como desvios de café em armazéns, aplicações irregulares ao edital do Pepro, entre outras parecem não ter fim e os responsáveis...
Tudo isto acontece apenas dentro do pátio da cafeicultura de arábica; por que será?
Será preciso uma mudança radical de mentalidade e postura gerencial, que apenas acorrerá com substituições de pessoas e reestruturação do modelo, atingindo finalmente reestruturações no CDPC.
Será preciso que os cafeicultores resgatem o respeito, que foi o marco de desenvolvimento da cafeicultura no Brasil e apliquem mudanças que atendam a princípios básicos e profissionais.
Em se mudando este atual modelo, o dinamismo e eficácia se farão presentes e ativos e os cafeicultores de ambos os produtos serão beneficiados, com reflexos positivos e diretos não apenas aos dependentes diretos, mas à própria sociedade.
Aceito, elaborado e estabelecido este novo modelo de gestão, então terão os elementos necessários para exigir do governo federal medidas de suporte ao longo prazo, através de políticas específicas elaboradas sobre as necessidades e potencialidades apresentadas e que certamente seriam viáveis, desde que tenha ocorrido a separação dos dois tipos de atividade, arábica e robusta.
Reflitam como é complexo e até mesmo confuso pensar em soluções conjuntas que atendam a arábicas e robustas; suas necessidades, assim como sua performance de mercado são distintas.
Colocar o trem sobre os trilhos não é tão complicado como possam imaginar, mas dependerá de vontades e necessidades por mudanças vindas da base para o topo; fazê-lo andar dependerá de capacidades, as quais o mercado possui competentes profissionais.
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