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Mudanças Climáticas: Métricas, Causas Impactos das Emissões


Decio Luiz Gazzoni

Décio Luiz Gazzoni e Geraldo Sant'Ana de Camargo Barros

 

Resumo de webinário apresentado pelo segundo autor na Academia Brasileira de Ciência Agronômica, coordenado pelo primeiro autor. O webinário completo pode ser acessado em https://www.youtube.com/watch?v=fQ--_P3fK0Y

 

O AQUECIMENTO GLOBAL E SUAS MÉTRICAS

          Desde 1960, a concentração de CO2 equivalente (CO2E) cresceu 35%, elevando a temperatura média global em 9% — de 13,6°C para 15,1°C. A taxa de acumulação de CO2E está se acelerando, de 0,3% ao ano na década de 1960 para 0,8% recentemente. O ano de 2025 foi o terceiro mais quente da história recente, com temperatura 1,47°C acima da era pré-industrial, próxima ao limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris para 2030. Considere-se que 2023 e 2024 foram o primeiro e o segundo mais quentes. Essa trajetória está diretamente associada à aceleração do crescimento econômico mundial a partir de 1950, com as sucessivas revoluções industriais elevando progressivamente as emissões globais de gases de efeito estufa.

          No Brasil, os efeitos são contundentes. enquanto a temperatura média mundial evoluiu de 13,95°C em 1992 para 14,97°C em 2023, a ocorrência anual de desastres climáticos saltou de 403 para 4.818 — crescimento de 1.095%. Em 32 anos, 92% dos municípios brasileiros registraram ao menos um desastre climático. Há correlação direta com a imprevisibilidade do PIB agropecuário: um aumento de cem ocorrências anuais de desastres dobra, em média, o desvio da tendência de crescimento do setor (3,5% ao ano). Os fenômenos El Niño e La Niña amplificam essa instabilidade de forma assimétrica entre as regiões, e os rios voadores — correntes de umidade oriundas da Amazônia — condicionam o regime de chuvas sobre as principais regiões agrícolas do país.

 

EMISSÕES GLOBAIS E O PAPEL DO BRASIL

          Em termos de emissões acumuladas históricas (1850–2021), os EUA lideram com 20,3%, seguidos por China (11%), Rússia (7%) e Brasil (4%). Globalmente, o setor energético responde por 76,7% das emissões de GEE, seguido pela agropecuária (12,3%), indústria (6,2%) e resíduos (3,8%). Nessa área, os maiores emissores desde 1970 são China, EUA, UE, Rússia, Índia e Indonésia. Enquanto a matriz energética mundial é 80% fóssil, a brasileira conta com 50% de renováveis; na geração elétrica, o Brasil alcança 87% de fontes renováveis, ante 30% da média mundial — diferencial que confere ao país vantagem comparativa no processo de descarbonização global.

          No Brasil, as emissões brutas cresceram 9% entre 1990 e 2023. As emissões brutas de mudança do uso da terra (MUTF) caíram 27%, com o desmatamento da Amazônia recuando cerca de 47%. As emissões agropecuárias (farm gate), porém, cresceram 60%, reflexo da expansão da produção. Em termos líquidos, as emissões brasileiras caíram 19% no período, graças à redução de 70% nas emissões líquidas de MUTF. O desmatamento do Cerrado, frequentemente negligenciado, equivaleu a 87% do ocorrido na Amazônia entre 2001 e 2022. Em 2024, o desflorestamento emitiu 1.078 Mt CO2E, enquanto a preservação florestal capturou 612 Mt, resultando em emissões líquidas florestais de 466 Mt.

 

O PAPEL DAS FLORESTAS E O VALOR DA AMAZÔNIA

          Globalmente, as florestas removem mais carbono do que emitem pelo desmatamento. O Brasil detém 11,7% das florestas mundiais e o maior estoque de carbono florestal do planeta. A Amazônia corresponde a 56% das florestas tropicais globais e suas florestas sequestram, em média, o equivalente a 60% das emissões geradas pelo próprio desmatamento nacional.

          O Banco Mundial estima que a Amazônia gera valor público global de ao menos US$317 bilhões por ano — equivalente a 15%–20% do PIB brasileiro —, considerando sequestro de carbono (a US$40/t) e biodiversidade. Os retornos privados do desmatamento para madeira, gado, soja ou mineração somam apenas US$43–US$98 bilhões anuais, o que define o diferencial econômico que justifica o desincentivo ao desmatamento.

 

AGROPECUÁRIA, MITIGAÇÃO E MERCADO DE CARBONO

          O sistema agroalimentar global emitiu entre 14 e 16 Gt CO2E em 2022, representando 30% do total global ante 38% em 2000 — redução impulsionada pela queda nas emissões de MUTF. O Brasil, com 2,5% do PIB agropecuário mundial, responde por 9% das emissões agrícolas globais; a fermentação entérica bovina concentra 66,8% das emissões agropecuárias nacionais.

          O Programa ABC (2010–2030) incentiva recuperação de pastagens degradadas, plantio direto, ILPF e fixação biológica de nitrogênio. Na primeira década, estima-se que foram evitadas 170 Mt CO2E; a meta do ciclo 2020–2030 é mitigar 1 Gt CO2E. Os biocombustíveis evitaram 92,1 Mt CO2E em 2024, reduzindo em 30% as emissões do transporte. O Brasil lidera em bioinsumos, com mais de 600 produtos registrados aplicados em mais de 150 milhões de hectares.

          O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), promulgado em dezembro de 2024, regulamenta créditos negociáveis na B3, com projetos de recuperação de pastagens, ILPF, reflorestamento e REDD+ gerando entre 2 e 20 tCO2E/ha/ano. Para ampliar esse mercado, são necessários regulação clara, governança transparente, formação de auditores locais, regularização fundiária e mecanismos financeiros para investimento em ativos de baixo carbono.

          Em resumo, as mudanças climáticas são um problema global e só podem ser resolvidas com o comprometimento de todos os países e blocos. Elas afetam todos os setores da economia, mas prejudicam particularmente o agronegócio, pela sua grande dependência da oferta climática. Por essa razão, os produtores agrícolas devem ser os maiores interessados na redução das emissões de gases de efeito estufa – diretamente responsáveis pelas mudanças climáticas, posto que estas são a maior ameaça à produção agrícola, nas próximas década.

 

Décio Luiz Gazzoni: Diretor de Comunicação da Academia Brasileira de Ciência Agronômica

Geraldo Sant'Ana de Camargo Barros –Coordenador Técnico do  CEPEA/ESALQ-USP

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