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Soja e abelhas: aliadas contra as mudanças climáticas


Decio Luiz Gazzoni

            A soja é uma das culturas agrícolas mais importantes do mundo e ocupa milhões de hectares em diversos países, especialmente no Brasil, Estados Unidos e Argentina. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial, uma das razões para que a produção de soja em nosso país seja comprovadamente sustentável.

            Tradicionalmente, a soja era considerada uma planta predominantemente autopolinizável, ou seja, capaz de produzir sementes sem a necessidade de agentes polinizadores externos. Durante muito tempo, essa característica levou muitos pesquisadores e produtores a acreditar que os insetos polinizadores tinham pouca importância para a cultura. Entretanto, um número crescente de estudos realizados nas últimas décadas vem demonstrando que essa visão precisa ser revista.

            O artigo "Pollination as an ecosystem service in soybean production for climate change mitigation" (bit.ly/4Bbfsiy ) compõe a contribuição da Embrapa para a COP 30 (Conferência do Clima), realizada em Belém. O artigo analisa evidências científicas acumuladas em diferentes regiões do mundo, porém, particularmente no Brasil, demonstrando que a atividade das abelhas pode aumentar significativamente a produtividade das lavouras de soja. Mais do que isso, os autores argumentam que a polinização deve ser reconhecida como um dos mais importantes serviços ecossistêmicos, capaz de gerar benefícios econômicos para agricultores e apicultores, além de contribuir para a sustentabilidade ambiental e para o enfrentamento das mudanças climáticas.

 

Serviços ecossistêmicos

            Os serviços ecossistêmicos são os benefícios que a natureza oferece à sociedade. Entre eles estão a purificação da água, a formação dos solos, o controle biológico de pragas e a polinização. Sem esses serviços, a produção de alimentos se tornaria mais difícil e muito mais cara. No caso da polinização, a contribuição dos insetos é amplamente conhecida em culturas como maçã, café, melão e diversas hortaliças. O que o artigo destaca é que mesmo uma cultura considerada pouco dependente de polinizadores, como a soja, pode apresentar ganhos relevantes quando visitada por abelhas.

            As flores da soja produzem néctar e pólen que atraem várias espécies de abelhas. Entre elas destaca-se a abelha-africanizada (Apis mellifera), amplamente distribuída nas áreas agrícolas. Durante a coleta de alimento, esses insetos depositam grãos de pólen no estigma da flor, ou transportam o pólen entre flores diferentes, favorecendo a fecundação e estimulando um melhor desenvolvimento das estruturas reprodutivas das plantas. Como resultado, ocorre aumento do número de vagens, maior quantidade de grãos por planta e grãos com peso mais elevado.

 

Evidências científicas

            Diversos experimentos citados pelos autores demonstram que lavouras, nas quais ocorre visitação de abelhas, apresentam produtividade superior àquela observada em áreas onde os polinizadores foram excluídos ou tiveram acesso limitado. Embora os resultados variem conforme o ambiente e as condições de manejo, a tendência observada pelos pesquisadores é clara: a presença de polinizadores pode proporcionar ganhos reais de produção. Inclusive com aumento da renda líquida do produtor, pois o acréscimo de produção não implica em aumento de custo.

            Uma das estratégias analisadas é a chamada polinização suplementar. Essa prática consiste na instalação planejada de colmeias próximas às áreas de cultivo, durante o período de florescimento da soja. Diferentemente de outras tecnologias agrícolas, a polinização suplementar não requer alterações significativas no sistema produtivo. O agricultor continua cultivando a mesma área, utilizando os mesmos insumos e as mesmas máquinas e empregando práticas semelhantes às já adotadas. A diferença é que passa a contar com o trabalho das abelhas como um fator adicional de produtividade.

            Essa característica confere à polinização uma vantagem importante. Normalmente, aumentos de produção agrícola estão associados ao uso de mais fertilizantes, mais pesticidas, mais combustível ou à incorporação de novas áreas ao cultivo. Em contrapartida, o incremento proporcionado pelas abelhas ocorre essencialmente pela melhoria de um processo biológico natural. Trata-se de uma forma de intensificação sustentável, capaz de aumentar a eficiência da produção com menor impacto ambiental.

 

Ganho ambiental

            O artigo chama atenção para um aspecto frequentemente ignorado nas discussões sobre agricultura, que é a relação entre produtividade e uso da terra. Quando uma lavoura produz mais por hectare, reduz-se a necessidade de expandir a fronteira agrícola para atingir determinada meta de produção. Em outras palavras, se uma mesma quantidade de soja pode ser obtida em uma área menor, diminui a pressão para converter florestas, cerrados, campos naturais e outros ecossistemas em áreas agrícolas.

            Essa relação tem implicações diretas para a conservação da biodiversidade. A expansão agrícola é considerada uma das principais causas de perda de habitats naturais em várias regiões do mundo. Portanto, qualquer tecnologia que permita produzir mais utilizando a mesma área contribui indiretamente para a preservação dos ecossistemas naturais.

            Os autores vão além e exploram a conexão entre polinização e mudanças climáticas. O combate ao aquecimento global exige reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar a eficiência dos sistemas produtivos. Quando a produtividade cresce graças à polinização, o conjunto de recursos utilizados para produzir uma tonelada de soja permanece praticamente o mesmo, mas é distribuído por uma produção maior. Como consequência, ocorre redução da emissão de carbono por unidade produzida.

 

Integrando agricultura e abelhas

            Segundo a análise apresentada no artigo, a polinização suplementar permite reduzir a intensidade das emissões associadas à produção de soja. Isso significa que cada tonelada produzida passa a carregar uma pegada de carbono menor. Embora o efeito de uma única lavoura possa parecer modesto, sua aplicação em grandes áreas agrícolas tem potencial para gerar impactos ambientais expressivos. De acordo com o artigo, é possível reduzir até 25% das emissões, por tonelada de soja produzida, tanto pela redução da demanda de área, quanto pela diluição do uso de insumos, por unidade de massa de soja produzida.

            Outro ponto relevante destacado pelos autores é a complementaridade entre agricultura e apicultura. Muitas vezes esses setores são vistos como atividades independentes, mas na realidade podem estabelecer uma relação mutuamente benéfica. Os agricultores se beneficiam do aumento da produtividade proporcionado pelas abelhas, enquanto os apicultores encontram nas lavouras fontes importantes de néctar e pólen para suas colmeias. Isso pode resultar em maior produção de mel, pólen apícola, própolis e outros produtos de valor comercial.

            Essa integração cria oportunidades de geração de renda para diferentes segmentos do meio rural. Em algumas regiões já existem acordos formais entre produtores e apicultores para a instalação temporária de colmeias durante o período de florescimento das culturas agrícolas. Os autores consideram que iniciativas desse tipo podem se tornar cada vez mais importantes no contexto da agricultura sustentável.

 

Políticas públicas e boas práticas

            Entretanto, para que esses benefícios sejam plenamente alcançados, é necessário proteger as populações de polinizadores. O artigo lembra que diversos fatores vêm afetando as abelhas em diferentes partes do mundo. Entre eles estão a perda de habitats naturais, a redução da diversidade floral, o uso inadequado de defensivos agrícolas, doenças e os efeitos das mudanças climáticas. A diminuição das populações de polinizadores representa um risco não apenas para a biodiversidade, mas também para a própria produção de alimentos.

            Por essa razão, os autores defendem a adoção de políticas públicas e práticas agrícolas que favoreçam a conservação das abelhas. Entre as medidas sugeridas estão a preservação de áreas naturais próximas às lavouras, o plantio de espécies floríferas que sirvam de alimento aos polinizadores, o manejo responsável de produtos fitossanitários e o fortalecimento da cooperação entre agricultores, pesquisadores e apicultores.

            Em um cenário global marcado pelo crescimento da demanda por alimentos e pela necessidade urgente de enfrentar as mudanças climáticas, soluções baseadas nos processos naturais ganham importância cada vez maior. A experiência acumulada com a soja mostra que investir na proteção e no manejo adequado dos polinizadores pode gerar benefícios simultâneos para a economia, a sociedade e o meio ambiente. Nesse sentido, as abelhas surgem não apenas como produtoras de mel, mas como parceiras estratégicas de uma agricultura mais eficiente, sustentável e resiliente.

 

Um processo de ganha-ganha

            A principal mensagem do estudo é que a polinização deve deixar de ser vista apenas como um fenômeno ecológico e passar a ser reconhecida como uma ferramenta estratégica para a agricultura moderna. As abelhas não contribuem apenas para a manutenção da biodiversidade. Elas também podem aumentar a produtividade, melhorar a rentabilidade da produção agrícola, favorecer a conservação ambiental e ajudar na redução das emissões de gases de efeito estufa.

            Além de aumentar a produção, a polinização por abelhas também contribui para a mitigação das mudanças climáticas. Como o ganho de produtividade é obtido sem expansão da área cultivada e sem aumento proporcional dos insumos utilizados, ocorre uma redução da pegada de carbono da soja produzida. Os autores estimaram que a adoção da polinização suplementar pode reduzir as emissões em cerca de 47 quilogramas de CO2 equivalente por tonelada produzida. Isso sem considerar o ganho por redução de demanda de área, que é proporcional ao aumento da produtividade. Por exemplo, aumento de 20% na produtividade implica em utilizar 20% menos área, para obter a mesma produção.

            Em regiões produtoras de grande escala, esse benefício pode representar dezenas de milhares de toneladas de emissões evitadas, demonstrando que a integração entre agricultura e apicultura pode contribuir simultaneamente para a segurança alimentar, a rentabilidade dos produtores e o enfrentamento das mudanças climáticas.

            Ou seja, todos ganham!

 

O autor é engenheiro agrônomo, bolsista de inovação da Embrapa, membro do Conselho Científico Agro Sustentável e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

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