O governo brasileiro, preocupado com a clara possibilidade de terminar 2009 com um PIB negativo, depois do resultado do terceiro trimestre, voltou à carga e retomou o apoio à economia. Como se sabe, na atual situação de crise, sem o crédito público a economia não decola, pois o crédito privado está longe de retornar ao mercado.
Assim, além de manter a isenção de impostos à linha branca, ao setor automobilístico em alguns segmentos, à construção civil, agora lança um programa de apoio a motocicletas. Pelo menos até 31 de março próximo a tendência é o Estado, mesmo no seu limite, continuar apoiando a economia a fim de segurar o máximo que puder o impacto negativo da crise. O problema é que estimular o consumo sem avançar em obras de infraestrutura é gerar um problema mais grave do que a solução imediata que o mesmo traz.
O aumento no consumo de automóveis, ônibus, caminhões e motos, num país que não investe em estradas, emperra qualquer processo de desenvolvimento. Estamos inundando o país de veículos automotores, num processo de endividamento geral da população, o qual potencializa a inadimplência de muitos, sem termos estradas para com eles circular.
A situação ficará mais evidente neste final de ano e a chegada das férias de verão, caso haja dinheiro para se viajar. Nossas estradas estão aos pedaços e os consertos que nelas vêm sendo feitos é a caracterização do subdesenvolvimento. Se gasta fortunas para pavimentar e repavimentar estradas cujo serviço não dura três meses e algumas chuvas. O exemplo da BR 285, que corta o município de Ijuí (RS), é um dentre tantos que existem neste país no momento. Neste sentido, o PAC se consolida como um projeto muito mais eleitoreiro do que realmente gerador de condições de crescimento e desenvolvimento econômico, infelizmente repetindo situações passadas.
Outro exemplo que se consolida nestes últimos tempos está no aumento de consumo de bens eletrodomésticos e eletrônicos, sem termos energia elétrica suficiente para todos, fato que volta a deixar a população nacional à mercê de apagões.
Balança comercial diminui ímpeto
Com o novo déficit em seu saldo comercial, agora de US$ 4 milhões na segunda semana de dezembro, o Brasil assiste o efeito de um câmbio que vem deixando, desde meados do ano, o Real mais uma vez sobrevalorizado em relação ao dólar. Assim, até o dia 13 de dezembro nosso saldo acumulado no ano ficou muito próximo do registrado em 2008, na mesma época.
Ou seja, em US$ 23,57 bilhões contra US$ 23,15 bilhões do ano anterior. A tendência é terminarmos o ano com um saldo ao redor de US$ 24 bilhões nessas condições. Um número apreciável, a julgar pelo tamanho da crise econômica que o mundo enfrenta. Todavia, tal saldo vem sendo possível por um fator essencial. A economia parou!
De um lado, as exportações sofrem com a freada internacional, ao registrarem um recuo de 24,3% no acumulado do ano em relação a 2008, até meados de dezembro. Por outro lado, mesmo com um Real muito valorizado nos últimos seis meses, as importações não decolam, tendo perdido 27,9% de seu valor no mesmo período.
Isso explica o saldo comercial positivo que estamos tendo, porém, evidencia que o ímpeto do mesmo diminuiu neste final de ano, assim como demonstra claramente que a crise econômica global e nacional está sendo muito importante. Subestimar tais números é incorrer em um grave erro de avaliação do que vem ocorrendo e das dificuldades que ainda teremos, em 2010, para superar definitivamente a crise.
O comportamento cambiel em 2009
O ano que finda, para o câmbio, foi de grande turbulência, com efeito nos preços em geral e na Bolsa de Valores em particular. Nos primeiros três meses de 2009 o Real sofreu forte desvalorização, na esteira da saída de capitais estrangeiros do país, boa parte especulativos, que foram cobrir posições com prejuízos no chamado Primeiro Mundo.
Com isso, o ano, que havia iniciado com uma cotação de R$ 2,33 alcançou R$ 2,44 no início de março. Posteriormente se iniciou um processo contínuo de valorização do Real, a ponto do mesmo atingir, em meados de outubro, seu mais baixo nível (R$ 1,70). Dali para cá, o mercado estabilizou entre R$ 1,70 e R$ 1,75, tendo conseguido chegar, no final desta terceira semana, a picos de R$ 1,78.
Nesse contexto, em não havendo mudanças na política cambial dos EUA, que insiste em deixar o dólar perder força no mundo, o câmbio no Brasil, para 2010, deverá oscilar entre R$ 1,60 e R$ 1,90, permanecendo ainda muito sobrevalorizado. No entanto, é importante alertar que em havendo recuperação na economia do Primeiro Mundo, mesmo que suave, os capitais tenderão a se deslocar para esta região, podendo desvalorizar o Real e, com isso, favorecer as exportações.
Todavia, em isso ocorrendo, o fluxo de capitais na Bovespa diminuirá e o índice da mesma deverá recuar, provocando perdas para muita gente. Afinal, não podemos esquecer que a Bovespa, em 2009, ultrapassa 80% de ganhos enquanto a economia do país tende a crescer 0% e talvez mesmo registrar um PIB negativo nesse ano, fato que caracteriza uma situação basicamente especulativa em nossa Bolsa, alimentada pelo capital externo não-produtivo.
Preços mais baixos para a soja
Com base nos dados desta quinta-feira (17/12), as futuras cotações da soja no mercado brasileiro, para o período de março/abril, continuam apontando para um preço menor do que o obtido um ano antes.
Tomando-se por base o chamado preço de balcão, em havendo safra cheia na América do Sul, o câmbio permanecendo nos atuais níveis, o preço do saco ao produtor gaúcho, por exemplo, tende a se fixar, em média, ao redor de R$ 35,00. Em 2009, em março/abril a média gaúcha ficou em R$ 44,00/saco.
Isso significa uma perda de nove reais por saco de um ano para outro. Agora, mantendo as condições acima indicadas, se as cotações em Chicago vierem para a média que o governo dos EUA apontou em seu último relatório de dezembro (US$ 9,62/bushel, contra US$ 10,36/bushel que atualmente está sendo indicado para o mês de maio de 2010), o preço ao produtor gaúcho poderá recuar para algo entre R$ 32,00 e R$ 33,00/saco, elevando a perda para 11 a 12 reais por saco.
Obviamente, muito pode mudar até a colheita, mas essa é a tendência que o mercado está apontando neste final de 2009, com base nas informações hoje existentes.