Chegamos a março e a economia mundial continua dando sinais de que a crise veio para ficar, confirmando os alertas feitos no ano passado de que estaria presente ainda em 2010.
Ao mesmo tempo, a economia brasileira, por melhor preparada que esteja, aos poucos vai sentindo o impacto da crise internacional. E isso tudo porque existe uma correlação direta entre diferentes fatos que vêm ocorrendo neste mundo interdependente.
O centro do problema continua sendo a fraqueza do sistema financeiro dos EUA (os bancos), com repercussões nos sistemas europeu e asiático. E isso porque seus agentes abusaram de alavancar em bolsa aplicações muito acima dos seus reais ativos.
O mundo depositou muita esperança no governo Obama, o qual não consegue, e nem poderia, de imediato romper com a trajetória da crise sem atacar profundamente o centro do problema. E o mercado percebeu que o pacote de quase US$ 800 bilhões, recentemente aprovado pelo novo Congresso estadunidense, é insuficiente para este fim. O novo estouro da AIG (maior seguradora dos EUA) vem confirmar o quadro. Imediatamente, os índices bursáteis mundiais retomaram sua tendência de queda, com o Ibovespa voltando a 36.000 pontos no dia 02/03. Wall Street recuou abaixo de 7.000 pontos no mesmo dia, índice que não era visto há 11 anos.
Com isso, no acumulado de 2009 as principais bolsas mundiais acusam perdas importantes, após recuos enormes em 2008. O Dow Jones perde 22,3%; na Alemanha a perda é de 22,8%; no Japão 17,7%; na Espanha 19,9%; no México 25,3%; na Argentina 12,6% e na Inglaterra 17,5%. A Bovespa, no acumulado do ano, ainda soma uma perda de apenas 3,5% confirmando que nossa economia resiste, porém, indicando que o potencial de recuo, comparativamente, é grande caso a resistência seja rompida.
Nessas condições, a liquidez mundial continua difícil e o retorno do crédito privado, mesmo no Brasil, tende a demorar ainda mais. Ao mesmo tempo, o setor público começa a dar sinais de esgotamento no que diz respeito aos recursos e estratégias disponíveis para continuar atacando o problema.
No Brasil, por exemplo, o quadro hoje se apresenta da seguinte forma: o governo continua tentando estimular o consumo, gerando uma inadimplência preocupante, já evidenciada pelo retorno de cheques emitidos nos últimos meses.
Muita gente não gosta de falar em crise, porém, não se pode esconder a realidade. O governo federal ignorou, no início, essa dura lição e estimulou um consumo que, agora, boa parte dos brasileiros não pode sustentar, fato que piora os efeitos da crise.
As empresas continuam a demitir e/ou a realizar acordos, visando demissões futuras, inclusive voluntárias, fato que agrava a capacidade de consumo nacional, gerando uma inadimplência potencial para os próximos meses. Resultado: nosso crescimento econômico para 2009 já está sendo projetado em 1,8%, ou seja, muito abaixo do que muitos apostavam, inclusive o governo. Paralelamente, a crise está levando o mundo a uma recessão, já confirmada nas principais regiões desenvolvidas.
Com isso, mesmo diante de um câmbio favorável, nossas exportações diminuem, reduzindo o superávit comercial. Não podendo vender lá fora, e com o mercado local endividado, as empresas nacionais reduzem a produção e aumentam o desemprego. No exterior, a recessão vem trazendo os preços mundiais para baixo, caso do petróleo, que está abaixo de US$ 40,00/barril.
Isso inviabiliza o etanol de milho nos EUA, projetando uma redução na área plantada com o cereal em favor da soja. Resultado: em plena colheita brasileira os preços da soja em Chicago voltaram a recuar.