Já no final de 2010 se vislumbrava a possibilidade de crise no setor de combustíveis brasileiro. Após três anos de estabilidade, a safra nacional de cana-de-açúcar (abril a novembro) deveria ser menor em 2010/11, segundo a UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar).
No Centro-Sul brasileiro, após previsões iniciais indicando 570 a 590 milhões de toneladas de cana moída, o número passa a 560 milhões. Além disso, o usineiro ou produz etanol ou produz açúcar ao moer a cana. Tudo irá depender do preço de cada um destes produtos. Ora, no final de 2010 o açúcar batia um recorde de 30 anos na Bolsa de Nova York, superando os 33,90 centavos de dólar por libra-peso. Como o preço do etanol no Brasil permanecia estável, a opção foi destinar mais cana para fazer açúcar.
Assim, entre 01/04 e 01/12 do ano passado a produção nacional de açúcar cresceu 24,6%, chegando a 33,02 milhões de toneladas enquanto a moagem de cana aumentava apenas 8,86% sobre o período anterior. Na mesma linha, as exportações nacionais de açúcar, entre abril e setembro de 2010, somaram 17,7 milhões de toneladas ou 37% acima do registrado no mesmo período do 2009. Soma-se a isso uma demanda aquecida no Brasil e o preço do açúcar igualmente sobe forte no mercado interno. Assim, segundo o CEPEA, já em meados de 2010 o açúcar remunerava, em média, 32% a mais do que o etanol anidro e 43% a mais do que o hidratado (base São Paulo). Em alguns momentos de 2010 a vantagem chegou a superar 130%. Com isso, a produção de etanol diminuiu.
Crise nos combustíveis (II)
Estes são os fatos e assim funciona o mercado. O que impressiona foi o descaso do governo anterior diante da tendência que se desenhava para o início de 2011 (escassez de etanol). Mais um ato de incompetência gerencial! Somase a isso o estímulo exagerado que o governo de então deu ao consumo de automóveis, em particular os flex (bicombustíveis).
Ora, a demanda sendo estimulada artificialmente, num momento em que a oferta de etanol decrescia, não podia resultar em outra coisa senão em crise de preços dos combustíveis no país, com forte pressão inflacionária. A mesma nos alcançou em cheio a partir de março passado, com os preços do etanol chegando a subir 24% em uma semana. Para piorar o quadro, como o Brasil mistura 25% de etanol na gasolina, este produto igualmente acabou tendo seu preço em elevação.
Soma-se a isso o fato de que a demanda por gasolina aumentou igualmente, pois os proprietários de carro flex deixaram de lado o etanol, mais caro, e buscaram se abastecer em gasolina. A ponto de o Brasil estar importando gasolina para atender sua demanda interna! Algumas evidências desta realidade: a) o problema não tem nada com o aumento dos preços do petróleo no mercado mundial, pois em 2008 o ouro negro subiu mais do que isso e nada aconteceu; b) a produção de etanol brasileira muitas vezes pode ser uma armadilha na lógica da independência em combustíveis; c) o Brasil está longe de ter uma Petrobrás eficiente para abastecer seu mercado interno quando precisa; d) a agência reguladora ANP deve ser reforçada e direcionada também ao etanol.