Uma interessante abordagem sobre os efeitos da crise foi realizada por Daniel Cohen, em editorial do jornal Le Monde (Paris) do dia 1º de setembro. Após dois anos de crise mundial, tem-se como resultado imediato que o sistema financeiro foi salvo e o recuo da demanda foi amortecido pelos recursos públicos.
Ou seja, os Estados conseguiram salvar a economia de mercado diante de sua pior crise desde 1929. Os primeiros resultados de recuperação das economias, embora ainda frágeis, começam a surgir. Todavia, nota-se que nada foi resolvido dos problemas que criaram a atual crise. Na prática, a mesma teria nascido de duas rupturas principais.
A primeira, ainda nos anos de 1980, quando se instalou a revolução financeira que coloca as Bolsas sob comando das empresas e um novo modo de gestão se instala: o objetivo é a eficácia imediata, onde os prêmios por desempenho se tornam mais importantes do que o trabalho bem feito e a lealdade para com a empresa. Se ganha bônus financeiro mesmo errando estratégias!
A atual globalização seria a segunda ruptura que agitou o mundo. Graças a ela os países emergentes, tipo o Brasil, China, Índia e Rússia, se industrializaram, causando dois fortes efeitos contraditórios: redução nos preços dos produtos industrializados e elevação nos preços das matérias-primas básicas. Assim, num determinado momento passou-se a pagar cada vez mais barato os produtos eletrônicos, por exemplo, e cada vez mais caro os alimentos e o transporte.
Vale destacar que nos anos de 1970, os dois grandes choques do petróleo, que elevaram o preço do barril de US$ 1,80 para cerca de US$ 50,00 entre 1973 e 1979, provocaram uma brusca freada no crescimento econômico da época, ao mesmo tempo em que geraram inflação e uma oferta de dinheiro (petrodólares) muito grande.
Crise: problema central não é resolvido (II)
Somam-se a isso os constantes aumentos salariais no mundo visando compensar o aumento no custo da energia. Já nos anos 2000 a inflação acabou controlada graças ao recuo nos preços dos produtos industrializados e a menor reposição salarial. Todavia, em nenhum momento os excedentes petrolíferos foram atingidos pela inflação.
Pelo contrário, desde os anos de 1970 eles circulam pelo mundo em busca dos melhores locais para serem aplicados. Isso gera um aumento da liquidez mundial, o qual, sob fundo de globalização, aumenta a especulação financeira. Soma-se a isso o advento da China e sua entrada na economia de mercado a partir de meados dos anos de 1980.
Diante de sua incapacidade em gerar uma proteção social adequada, do aumento natural do envelhecimento populacional e dos baixos salários pagos aos seus trabalhadores, o país vem poupando enormemente (quase 50% de sua renda), gerando excedentes comerciais muito elevados. Assim, a China também coloca no mercado um volume considerável de recursos, aumentando a liquidez mundial.
Diante disso, dois interesses se somaram: os petrodólares e os recursos chineses buscaram contrapartidas para rentabilizarem tal renda, enquanto os EUA, através de Wall Street, criaram mecanismos bursáteis para captar tais recursos, alimentando ainda mais o endividamento do país e criando um sério problema no longo prazo.
Ora, a enorme liquidez mundial foi duramente atingida pela crise atual, forçando o consumidor estadunidense a poupar, reduzindo a demanda interna.
Ou novas bolhas de crédito assumem a retomada (até agora os Estados o fizeram, as custas de enorme déficit público), ou o crescimento mundial será medíocre nos próximos anos, sem poder absorver os excedentes do petróleo e da China. “O veneno que gerou a crise atual continua agindo.”