Formação de Jovens Quilombolas como Multiplicadores da Organização Social e do Potencial Empreendedor Comunitário
I. Introdução
Segundo estudos de WANDA ENGEL, especialista do BID em estudos de combate à pobreza, “A necessidade de garantir a sobrevivência dia a dia, pode gerar um enorme imediatismo, cuja versão mais cruel é a perda da capacidade de projetar, de sonhar, de ter futuro”.
A pessoa que vive apenas para suprir suas necessidades fisiológicas pode se embrutecer, perder a crença de si mesmo, de acreditar nos seus próprios direitos de cidadão e na sua própria capacidade transformadora da realidade. A crença da incapacidade absoluta, o despoder, pode levar a pessoa a colocar sua vida e seu futuro sob o controle externo, se entregando ao “fundamentalismo religioso, ao clientelismo político ou a loteria”, como diz a Wanda Engel.
A desvalorização, a invisibilidade social, o preconceito, a discriminação e outras as formas anulatórias da exclusão social, alimenta a quebra do contrato social, a violência e o desrespeito a lei.
É necessário criar condições para que os apartados da sociedade, possam se descobrir merecedores de direitos, detentores de saberes e de potencialidades humanas plenas.
Os quilombolas, embora pobres e majoritariamente exclusos, se constituem comunidades enraizadas as origens e fortemente estruturadas culturalmente, haja visto a resistência mostrada ao longo da historia. Eles precisam apenas de apoio, suporte que acelere a compreensão do mundo e da sociedade que os rodeia, e ao mesmo tempo ofereça ferramentas e mostre o caminho de inclusão.
Vivemos um mundo onde as trocas de bens e serviços se dão pela moeda. De alguma forma precisamos desenvolver habilidades e produtos que despertem o desejo de outros, e assim termos acesso a economia, aos bens e serviços da sociedade.
Este projeto visa dotar as comunidades quilombolas de lideranças capazes de realizar a interlocução com a sociedade externa, reivindicar direitos junto ao estado, organizar cooperativas, desenvolver diagnóstico, escrever projetos e planos de negócios, articular, buscar parcerias e forjar condições para desenvolvimento etnosustentado das comunidades quilombolas.
O curso terá duração de 1 ano, 2 turmas de 50 alunos, e cada aluno ficará responsável por 10 comunidades, escolhidas de acordo com afinidade regionalista e facilidade de acesso.
No prazo de até 5 anos, com o acompanhamento do CEABRA, cada um dos 100 jovens organizará um ou mais empreendimentos, em cada uma das 10 comunidades sob sua responsabilidade.
II. Objetivos
Geral: Capacitar e formar 100 jovens de 16 a 35 anos como facilitadores e multiplicadores da organização social e do potencial empreendedor nas comunidades quilombolas, visando o desenvolvimento etnosustentado.
Específicos:
Identificar e discutir em cada comunidade o saber, o potencial empreendedor e a vocação econômica ambiental, através da realização do Seminário “Despertar do Saber e do Potencial Empreendedor Quilombola” em 1.000 comunidades.
Realização do seminário “Construção do Plano de Negócios a partir do Desenvolvimento Etnosustentado” em 1.000 comunidades
Desenvolver pelo menos 1 plano de negocio em cada uma das 1.000 comunidades
Desenvolver pelo menos uma organização (Cooperativa, associação ou empresa comunitária) em cada uma das 1.000 comunidades.
Definir e implantar pelo menos um empreendimento em cada uma das 1.000 comunidades
Identificar e articular parecerias e fontes de recursos para desenvolvimento dos empreendimentos
III. Critérios de seleção e avaliação dos alunos
Os alunos serão escolhidos pela comissão de seleção formada pelos organizadores e parceiros do projeto, considerando os critérios a seguir:
• Escolaridade: Mínima de 2º grau ou em formação
• Gênero: 30% dos candidatos devem ser do sexo feminino, sendo pelo menos 15% com idade até 21 anos.
• Idade: 30% dos candidatos deve ter idade menor que 21 anos.
• Representatividade: Indicação de pelo menos 3 comunidades.
• Áreas de Interesse: Questões étnicas, etnodesenvolvimento, organização e animação comunitária, facilidade para novos aprendizados como informática, comunicação pela Internet, comunicação inter-pessoal, negociação e mediação de conflitos.
• Ajuda de custo: Cada aluno selecionado receberá, uma ajuda de custo equivalente a 1 salário mínimo mensalmente durante o primeiro ano, 2 salários mínimos durante o segundo e terceiro ano do treinamento. As despesas de locomoção para realização de seminários e atendimento das comunidades, serão repassados aos alunos, mediante a apresentação antecipada do plano de trabalho, discutido e aprovado pela equipe responsável pelo curso.
• Premiação: Os planos de negócios implantados e consolidados até o 5º ano do inicio do curso receberão prêmios de 1 a 10 salários mínimos, de acordo com critérios a serem definidos pelo grupo de participantes do curso.
• Avaliação: No final de cada unidade, os alunos e professores farão avaliação do rendimento de cada participante na unidade teórica e nas obrigações de campo, e a cada trimestre serão excluídos aqueles que não se adequarem a proposta e ou tiverem rendimento aquém dos parâmetros fixados pelo próprio grupo. As vagas abertas poderão ser preenchidas por novos pretendentes de acordo com avaliação da equipe. A exclusão do participante, implica no cancelamento concomitante da ajuda de custo.
IV. Etapas do trabalho
Pré curso
1. Contato com lideranças para divulgação do curso e dos critérios do processo de seleção:
2. Visitas aos estados e regiões onde se concentram as comunidades, e seleção dos interessados.
Curso
3. O curso de formação será desenvolvido em 6 unidades, com carga horária de 240 horas concentrada em 6 semanas, uma a cada bimestre do primeiro ano. O programa prático será desenvolvido nas comunidades dos alunos, com apresentação dos seminários “O despertar do saber e do potencial empreendedor quilombola” e “Construção do Plano de Negócios a partir do Desenvolvimento Etnosustentado”. Cada aluno organizará uma cooperativa de empreendedores e plano de negócio na sua comunidade acompanhado e supervisionado pela equipe CEABRA.
A organização manterá um plantão técnico permanente para orientar pela Internet as demandas de informações e contatos necessários para os alunos desenvolverem seus planos de negócios.
Pós curso
4. Implantação de planos de negócios em 900 comunidades, com apoio do Ceabra através das seguintes atividades rotineiras: 2 reuniões do projeto no 2º e 3º ano, 2 visitas técnicas rotineiras no 2º e 3º ano e no 4º e 5º ano, visita extraordinária de acordo com demanda técnica especializada.
Metodologia do curso
Nas primeiras horas de cada dia do curso teórico serão aplicados jogos e exercícios de sensibilização, relações humanas e dinâmicas de grupos populares. Apresentação oral da matéria pelo professor, apresentação de vídeos, formação de equipes de 5 alunos, distribuição de material para leitura e roteiro de discussão de sub temas da matéria. Apresentação de cada sub tema pelas equipes, discussão aberta, comentários do professor e avaliação pelo grupo. A equipe Ceabra acompanhará os alunos na realização de seminários nas comunidades, até a sua total segurança e eficiência na aplicação dos mesmos.A organização da cooperativa, implantação e consolidação dos planos de negócios, será tarefa permanente dos alunos, que contarão com apoio da equipe Ceabra através da Internet, telefone e visitas in loco nas comunidades em pelo menos duas oportunidades durante o ano, e também quando fizer necessário para resolver problemas técnicos.
VI. Atividades nas comunidades
1. Primeiro ano
• Após a finalização de cada uma das unidades do curso, os alunos serão divididos em 10 equipes de 5 alunos para acompanhamento dos Seminários “O despertar do saber e do potencial empreendedor quilombola” e “Construção do Plano de Negócios a partir do Desenvolvimento Etnosustentado”, que será realizado em todas as comunidades dos participantes do curso. Totalizando a realização de 100 seminários em 50 comunidades.
• Cada aluno ficará encarregado de montar uma cooperativa de empreendedores em sua comunidade
• Carga horária total: 1.088 horas,
- presencial (6 unidades teóricas = 240 horas )
- seminários supervisionados nas comunidades = 80 horas
- trabalho prático nas comunidades: 768 horas
2. Segundo e terceiro ano
• Cada aluno escolherá e abordará 9 novas comunidades, onde aplicará, acompanhado da equipe CEABRA, os seminários; “Despertar do saber e do potencial empreendedor quilombola” e “Construção do Plano de Negócios a partir do Desenvolvimento Etnosustentado”
• Tarefas de cada aluno:
1- Manter em andamento o plano de negocio iniciado em sua comunidade
2- Formar e manter mobilizados grupos de trabalho permanentes nas 9 novas comunidades para contribuir na mobilização e organização dos seminários, organização da cooperativa e do plano de negocio
3- . Organização legal de cooperativa e implementação do plano de negocio em cada uma das 9 comunidades.
• Carga Horária total : 2.800 horas;
- aplicação de 18 seminários supervisionados: 288 horas
- discussões e atividades virtuais: 600 horas
- trabalhos nas comunidades: 1920 horas ( 16 h/mês)
VII. Impactos nas comunidades
1. Curto prazo
As comunidades escolhidas para desenvolvimento dos planos de negócio passarão por intenso processo de discussão de suas realidades, potencialidades, sonhos individuais e possibilidades de realizações comunitárias. Será um exercício muito forte, onde as dimensões da vida individual e coletiva estarão se defrontando permanentemente, exigindo então o crescimento do espírito e da integração comunitária, necessários para a organização formal, projeção e trabalho daqueles que acreditarem e desejarem se adentrar na vida empreendedora
2. Médio e longo prazo
Para desenvolver os empreendimentos na agricultura, agroindústria, turismo ou artesanato, será necessário desenvolver e disponibilizar paralelamente as infra-estruturas de energia, transporte, água, saneamento, educação, saúde, comunicação, segurança e outros bens e serviços importantes.
Esses empreendimentos vão gerar ocupação e renda, trazendo possibilidades de promoção do poder de compra de bens e serviços de toda comunidade. Haverá a promoção da informação, da cidadania, da massa crítica, afirmação da cultura e da auto estima quilombola, que de alguma forma levará a reflexos positivos nas relações sociais, culturais e representatividade política dessas comunidades.
VII. Programa Teórico do 1º ano
A primeira unidade e os encontros nos 2º e 3º anos serão unificada para as duas turmas, e o restantes das unidades serão realizados em datas e locais diferentes.
1ª. Unidade - Conceituação de desenvolvimento etnosustentado I. Importância da organização social para representação política e viabilização do empreendedorismo etnosustentado. As leis que garantem os direitos das comunidades remanescentes de quilombos I. Os órgãos públicos atuantes nas áreas de interesse quilombola I. Associativismo e cooperativismo I, Conflitos sociais e meio ambiente I.
2º. Unidade – Conceituação de desenvolvimento etnosustentado II. As leis que garantem os direitos das comunidades remanescentes de quilombos II. Associativismo e Cooperativismo II, Conflitos sociais e meio ambiente II, Comunicação, prevenção e solução de conflitos I
3º. Unidade –As leis que garantem os direitos das comunidades remanescentes de quilombos III. Associativismo e Cooperativismo III, Conflitos sociais e meio ambiente III , Comunicação, prevenção e solução de conflitos II. Noções de agro silvo pastoreio ecológico e como base da subsistência I, Verticalização certificação e agregação de valor a produção I, Eco turismo e turismo etnocultural.
4º. Unidade – Prevenção e solução de conflitos III. Noções de agro silvo pastoreio ecológico como base da subsistência II, Verticalização certificação e agregação de valor a produção II, Passos na construção do plano de negócios de Ecoturismo e turismo etnocultural I. Negociação e Mediação de conflitos I
5º.Unidade - Noções de agro silvo pastoreio ecológico como base da subsistência III, Verticalização certificação e agregação de valor a produção III, Passos na construção do plano de negocio de eco turismo e turismo etnocultural II, Passos na construção do plano de negocio na agro industria I Negociação e Mediação de conflitos II, Jogos e técnicas de dinâmica de grupos populares I
6º Unidade - Noções de agro silvo pastoreio ecológico como base da subsistência IV, Passos na construção do plano de negocio na agro industria II, Negociação e Mediação de conflitos III, , Jogos e técnicas de dinâmica de grupos populares II
Programa de reuniões para o 2º e 3º ano - No segundo e terceiro ano serão realizados 2 encontros gerais com o objetivo de reciclar conhecimentos, avaliar os encaminhamentos dos planos e articular novas ações.
Entidade propositora: Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro Brasileiros – CEABRA
Responsável Técnico - Eng.º Agr.º Valdo França - [email protected]
Brasília - Tel - 61-307-1067 9974-5604