No momento em que o mundo vive mais um capítulo da crise mundial, representado pelo estouro das contas públicas de alguns países da Europa, liderados pela Grécia, o Brasil insiste em continuar gastando mais do que pode, trilhando um caminho que, no futuro, poderá terminar na mesma situação dos gregos e países afins.
Dito de outra maneira, enquanto os países europeus (PIIGS), para sair da crise, cortam fundo em seus orçamentos procurando reduzir a dívida pública, o Brasil age contraditoriamente, ao anunciar cortes no orçamento e, ao mesmo tempo, sob pressão eleitoreira do Congresso, caminha para reajustes acima do previsto aos aposentados e outras categorias. Nada contra os reajustes aos trabalhadores e particularmente aos aposentados, que realmente merecem, em sua grande maioria, muito mais do que os 7,72% anunciados.
O problema é que a gestão pública do país colocou-nos numa situação em que a economia não suporta tais reajustes. Principalmente se o fator previdenciário for igualmente eliminado. Apenas o reajuste indicado gerará um rombo anual na previdência social da ordem de R$ 40 bilhões, se somando ao enorme déficit já existente e inviabilizando futuramente esse mecanismo.
Ou seja, a falta da reforma previdenciária inviabiliza qualquer movimento de ajuste salarial ou de aposentadorias acima do possível, mesmo que ele seja merecido.
Dívida pública e aposentadorias (II)
Outro fato assustador: sem fazer nenhuma reforma, o governo Lula, desde 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, deu 576% de reajuste aos servidores públicos, fruto de acordos políticos com algumas categorias. Com isso, o novo governo que virá herdará gastos adicionais de R$ 35 bilhões na folha de pagamento do setor público.
Mesmo que se defenda a necessidade de recuperar a inflação passada e aumentar o poder de ganho salarial, tal aumento acumulado é um disparate, pois a inflação oficial no período (janeiro 2003 a abril 2010), medida pelo IPCA, ficou em apenas 48,5%. Assim, os impostos aumentam a cada dia e as contas públicas estouram (a dívida interna do país já ultrapassa R$ 1,4 trilhão, ou seja, 45% do PIB de 2009).
A crise da Grécia, Espanha, Portugal e outros países é exatamente esta: a dívida pública ficou insustentável diante do PIB gerado anualmente. Não é por nada que, num repentino acesso de responsabilidade fiscal, o presidente Lula anuncia a possibilidade de vetar o fim do fator previdenciário. Afinal, entre 2000 e 2008 o mesmo teria proporcionado uma economia de R$ 10 bilhões à Previdência.
Está na hora deste país se conscientizar que não se pode mais “empurrar de barriga” os problemas fiscais nacionais (alguns menos esclarecidos chegam a falar em eliminar a Lei de Responsabilidade Fiscal, esquecendo que graças também a ela ainda não chegamos à situação grega). Ou realizamos as Reformas do Estado rapidamente (o novo governo e Congresso Nacional têm diante de si esse compromisso) ou iremos afundando até aniquilarmos a estabilidade econômica que conquistamos nestes 16 anos, voltando ao estágio das cartas de intenções ao FMI, à inflação galopante, e a inviabilização socioeconômica do país. Na economia “não há almoço grátis”!
Bolsa de valores continua despencando
Em menos de 45 dias a Bovespa perdeu 18,9% de sua pontuação, passando de 71.784 pontos em 8 de abril para 58.192 pontos no dia 20 de maio do corrente ano. Esse desastre bursátil vem na esteira da continuidade da crise mundial, agora cristalizada na crise de alguns países europeus.
E estamos diante de um movimento de recuo mundial. Todavia, no Brasil o mesmo é mais intenso, exceção feita à Espanha que está no centro dos problemas atuais, porque no ano passado tivemos um aumento irracional dos ganhos em nossa bolsa, que ultrapassou a 82% (nesse ano de 2010, até o dia 20/05, as perdas na Bovespa ultrapassam a 13%, sendo a segunda maior perda entre as principais bolsas mundiais, somente perdendo para a Espanha que, no período, ultrapassa os 20% de prejuízos).
Além do prejuízo a muitos aplicadores, a situação se reflete igualmente no preço das commodities mundiais. Assim, o petróleo voltou a baixar de preço, encostando novamente em US$ 70,00/barril, a soja recuou para níveis de US$ 9,40/bushel em Chicago, o mesmo ocorrendo com o milho, trigo e minérios em geral. Afinal, o capital especulativo, que tem alimentado esta ciranda financeira, sai dos países emergentes e destas bolsas em épocas de crise e busca refúgio no dólar.
Com isso, a moeda estadunidense se valoriza diante das demais moedas mundiais. Isso explica porque, mais uma vez, o Real se aproximou de R$ 1,90 nesta semana que passou, enquanto o euro chegou a apenas US$ 1,22, um dos mais baixos níveis dos últimos anos.
E o pior é que alguns analistas internacionais consideram que as ações nas bolsas mundiais ainda poderão perder 20% de seu valor médio nos próximos meses.
Soja continua marcando passo, mas há novidades
Como o previsto, os preços da soja estão estagnados ao redor de R$ 32,50/saco, no balcão, no sul do país e a R$ 24,00/saco em muitas regiões do Centro-Oeste. A novidade positiva é que a recuperação momentânea do dólar acabou compensando as perdas em Chicago (nestes últimos 30 dias o bushel recuou de US$ 10,04 para US$ 9,38, ou seja, 6,6%) e, por enquanto, a tendência dos preços gaúchos virem para níveis menores, tipo R$ 30,00/saco, ficou interrompida.
Por outro lado, a manutenção dos preços gaúchos nos atuais níveis também se dá pela ótima notícia procedente do porto de Rio Grande. O mesmo passou a operar com um calado maior (13 metros), fato que permite carregar maiores quantidades nos navios. Isso melhora o prêmio diário que se contabiliza no preço ao produtor. Geralmente, nessa época, em anos passados, quando de safra cheia como a atual, tais prêmios eram negativos.
A partir de agora dificilmente o serão (nesse momento, os mesmos oscilam positivamente entre 50 e 55 centavos de dólar por bushel, colaborando para sustentar o preço da oleaginosa pago ao produtor rural do Estado).