Como alertamos diversas vezes nesse início de 2010, o pior da crise teria passado, porém, a mesma está longe de ser superada. Explicamos que chegar ao fundo do poço é uma coisa, sair dele é outra bem diferente. E, por mais que o Brasil tenha conseguido, com méritos, enfrentar a crise, os efeitos da mesma continuariam a se fazer presente, provocando atribulações constantes durante o ano.
Enfim, desde o estouro da mesma, em agosto de 2007, passando pelo agravamento ocorrido em setembro de 2008, alertávamos que a crise era de longa duração, pois as causas da mesma são estruturais e de difícil solução. Hoje, passados quase três anos do início desta crise, reputada como a mais forte desde 1929, assistimos o mundo estagnado em torno de sérios problemas econômico-financeiros.
O estopim atual é o estouro das contas públicas na Grécia, com potencial expansão para o Portugal, Espanha e outros países menores da Europa. Os reflexos são mundiais nesse momento! No Brasil, a BM&F/Bovespa viu seu índice despencar nesta semana, perdendo cerca de 10.000 pontos em relação ao que havia conseguido semanas atrás.
Os capitais especulativos saem rapidamente do país para cobrir posições na Europa, centro do problema no momento.
E a crise mundial continua (II)
Por outro lado, a saída de dólares, associada a uma menor entrada dos mesmos, elevou rapidamente o preço da moeda estadunidense, desvalorizando o Real em nada menos que 9,2% em quatro dias, quando nossa moeda passou de R$ 1,73 ainda na segunda-feira (03), para R$ 1,89 no auge da alta, na quinta-feira (06).
Isso favorece momentaneamente o setor exportador, porém, atinge em cheio o setor importador, desestabilizando o comércio na medida em que tal câmbio está longe de ser definitivo, retratando apenas um momento de alta volatilidade. Sem falar no potencial inflacionário que o movimento traz consigo.
Paralelamente, o risco Brasil disparou para 237 pontos, aumentando 42,8% em apenas 21 dias, pois o mercado considera que países emergentes podem vir a sofrer as mesmas consequências dos europeus, na medida em que muitos continuam gastando acima de suas possibilidades.
O Brasil, nesses últimos dois anos, se encaixa diretamente neste caso e não faltam alertas a respeito. Ou seja, a crise mundial continua, estamos ainda longe de superá-la e 2010, para o Brasil, mesmo que melhor, pode não ser tão positivo como alguns esperam, deixando uma grande incógnita para 2011.
Álcool e gasolina
O Brasil, após 90 dias, acaba de retornar à percentagem de 25% de álcool na gasolina. A redução da mistura para 20% de álcool foi realizada devido à falta do produto em função da entressafra da cana-de-açúcar, fonte de nosso álcool combustível. Este episódio nacional nos trouxe algumas lições.
Em primeiro lugar, apesar de estarmos teoricamente sentados sobre um manancial de petróleo e termos uma estatal (Petrobrás) que se coloca entre as maiores do mundo no ramo, a eficiência de sua operacionalidade deixa a desejar. Com o aumento do consumo de gasolina, fomos obrigados a importar o produto, pois não tínhamos condições de suprir a demanda repentina que surgiu.
E a justificativa de que a importação era mais barata, devido ao câmbio, no mínimo nos informa que nosso sistema industrial peca parcialmente em competitividade. Em segundo lugar, tal realidade descaracteriza, como já se sabia, a dita autossuficiência em petróleo que o Brasil teria. Basta uma recuperação do consumo e já não temos suficientemente o produto.
Espera-se que nos próximos 15 anos o Pré-Sal venha efetivamente nos dar a autonomia propalada.
Álcool e gasolina (II)
Em terceiro lugar, o resultado da medida oficial está longe de ter sido um sucesso. O próprio governo não sabe mensurar se a medida resolveu. A única coisa que se sabe é que se conseguiu aumentar os estoques de etanol hidratado no período, segurando os preços internos do mesmo.
Enfim, o retorno à mistura de 25% de etanol à gasolina, que deveria nos oferecer um combustível mais barato, não confirma esta premissa. Isso porque, o governo, para compensar o maior uso de gasolina nos últimos 90 dias, deu um desconto num dos impostos incidentes sobre o produto (a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico – CIDE foi reduzida para R$ 0,15/litro).
Ora, o retorno do etanol a 25% na mistura, além de colocar nos tanques dos automóveis um produto mais caro no momento, levou a dita Contribuição a aumentar para R$ 0,23/litro. Assim, o litro da gasolina (que na verdade contém 25% de etanol), desde o dia 1º de maio ficou mais caro, em média, R$ 0,03. Em valores é pouco, porém, em termos de eficiência do nosso sistema de energia ele é de enorme significado.
Enfim, não podemos esquecer que o litro de nossa gasolina custa efetivamente R$ 3,376 na média estadual nesse início de maio, se considerarmos um litro de pura gasolina.
Chicago confirmou
Dias atrás escrevemos que as cotações de Chicago, aos níveis superiores a US$ 10,00/bushel (no dia 22/04 a mesma chegou a US$ 10,04/bushel) não se justificavam, a não ser pela continuidade do processo especulativo liderado pelo capital financeiro mundial. Bastou a crise da Grécia se consolidar, e a afirmação acima se confirmou.
Nesse dia 06/05 Chicago fechou em US$ 9,45/bushel, voltando a patamares mais palatáveis. Ou seja, em 10 dias úteis a soja perdeu 5,88% naquela Bolsa.
E se considerarmos a oferta mundial e o aumento dos estoques internacionais do produto para 2010, as cotações em Chicago ainda estão muito elevadas.