É notório que o Brasil suporta bem a crise econômico-financeira que atinge o mundo desde agosto de 2007. É notório igualmente que nossa resistência se deve ao fato de termos perseverado na linha econômica da estabilização, iniciada em 1994 com o Plano Real e aperfeiçoada quando da guinada realizada nesse mesmo Plano em janeiro de 1999, ao adotarmos um tripé fundamental de condução da economia: metas inflacionárias; superávit primário; câmbio flutuante.
A importância de tais medidas ficou comprovada na transição presidencial de 2002/03, quando o atual governo, contrariando a muitos, decidiu manter a linha econômica. Esse conjunto de movimentos decisivos em nossa economia, embora careçam de complementos fundamentais, tipo as reformas do Estado, e de ainda não estarmos livres de arroubos políticos populistas e não termos extinguido a incompetência política nacional, representada em personagens conhecidas, onde grassa o interesse individual em prejuízo do coletivo, está nos permitindo sair lentamente da crise mais fortes economicamente.
Isso desde que saibamos administrar os efeitos colaterais do remédio pontual aplicado para auxiliar na recuperação, que são, principalmente, o forte aumento do déficit público e o grande endividamento, com aumento da inadimplência, da sociedade brasileira, compelida a gastar sem muita responsabilidade.
Dentre os efeitos positivos do processo, encontramos uma importante redução na taxa básica de juros, a qual recuou 36,4% nesse ano, e a redução da inflação, contrariando o temor de que a mesma pudesse disparar com o aumento dos recursos disponibilizados pelo governo, a ponto de caminharmos para fechar 2009 abaixo da meta dos 4,5% (IPCA) anuais, após 5,9% no ano anterior.
Economia brasileira: as boas notícias (II)
Paralelamente, o governo mantém um rígido controle sobre as operações bancárias, mantendo as regras de regulação impostas ainda em meados dos anos de 1990, quando do lançamento do Proer, fato que salvou o nosso sistema financeiro de entrar na ciranda destruidora mundial provocada pela crise nesse setor.
Algo, aliás, que o mundo deverá adotar agora a julgar pela reunião dos presidentes dos bancos centrais dos 27 países do mundo, ocorrida na Basiléia (Suíça) no início deste mês de setembro. Por outro lado, nossa economia, mesmo devendo ficar com um PIB próximo de 0% em 2009, contra 5,1% em 2008, já está saindo da recessão e indicando uma possibilidade de crescimento bem melhor para 2010.
Isso permitirá que os empregos voltem a ser gerados com maior velocidade e durabilidade. Soma-se a isso, igualmente, o fato de continuarmos mantendo um superávit importante na balança comercial, mesmo com um câmbio desfavorável nos últimos meses. Nos primeiros oito meses deste ano, nosso saldo alcançou US$ 19,97 bilhões, o que representa 18% acima do obtido no mesmo período do ano passado, quando a economia mundial ainda estava aquecida.
Embora o ritmo das vendas externas tenha recuado em 24,7% na média diária, em comparação ao ano anterior, continuamos a manter um espaço razoável no mercado externo, devendo aumentá-lo quando da recuperação global, a partir de 2010.
Por sua vez, o risco-Brasil se encontra seguidamente abaixo dos 300 pontos, fato que tem atraído um importante volume de Investimentos Externos Diretos (capital produtivo), além do retorno (preocupante) do capital especulativo.
Qualquer que sejam os governantes eleitos em 2010, temos que perseverar nessa linha econômica, completar o dever de casa com as reformas, e não cairmos em desastrosas ações populistas.