Diante da crise ocorrida com a comercialização da soja para a China, assistimos (e lemos) a uma série de declarações e artigos a respeito do assunto. Uma grande maioria procurando entender, explicar e analisar os fatos com base nas informações existentes. Uma minoria, no entanto, procurando tirar do fato motivos políticos e ideológicos, nem que para isto seja necessário extrapolar e deturpar a realidade.
O fato, conforme a realidade encontrada em nosso interior e informações obtidas diretamente da China, é que efetivamente um certo número de produtores rurais, de todos os matizes, acabou misturando, junto ao produto soja desta safra, sementes tratadas com fungicida que deveriam ter sido plantadas e não o foram.
Assim, está-se falando de sementes tratadas com fungicida justamente para não se perderem, conforme orientação técnica. Não se trata de produto envenenado, como alguns erroneamente afirmam, deixando a entender que os produtores são, mais uma vez, “criminosos”. O erro, e este sim existe e vem de longa data, está na ingenuidade e amadorismo de considerar que se pode vender produto com misturas de todo o tipo, inclusive sementes tratadas com fungicidas (nocivas à saúde humana, sem dúvida) impunemente.
No caso específico da semente de soja tratada, era imperioso destruí-la e não comercializá-la. Se é verdade que no conjunto pode ter sido uma minoria que assim procedeu, na prática o custo acabou sendo para todos.
Por outro lado, querer identificar na transgenia da soja a causa de tal problema é, no mínimo, desinformação ou má intenção. O mercado mundial em geral e a China em particular têm normalmente absorvido os produtos transgênicos, especialmente a soja. A tal ponto que a área semeada com tais produtos, no mundo, está crescendo todos os anos. O que se tem são nichos de mercado para os produtos convencionais e orgânicos.
Nichos pequenos e que, no primeiro caso, não pagam nenhum preço compensador por receberem um produto supostamente, para eles, mais interessante. Um evidente caso de imperialismo, para usar uma palavra cara aos radicais contrários àquilo que vem do exterior.
O problema da contaminação do produto soja não está no fato da transgenia ter sido desenvolvida e aceita publicamente no país, embora inicialmente à revelia de uma lei ultrapassada que motivou ações retrógradas em relação à ciência, criando-se um ambiente de confronto e não de encaminhamento do problema.
O próprio governo do presidente Lula acabou percebendo a questão e, mesmo que por medida provisória, aceitou o processo, criando mecanismos que permitissem ao produtor usufruir das vantagens tecnológicas e econômicas que a ciência transgênica tem oferecido ao agronegócio mundial. Aliás, a própria China é um dos países, juntamente com os europeus e japoneses, que mais desenvolve pesquisas com produtos transgênicos, já adotando na prática muitos destes produtos em seu consumo humano e animal.
Na verdade, o problema está na falta de ética, respeito e cultura comercial em compreender que devemos realizar o melhor possível, oferecendo o melhor serviço e produto, sem desejar ganhar em cima do jeitinho e da ação de enganar as pessoas imaginando que “um pouquinho só não fará mal a ninguém e servirá para melhorar individualmente a minha vida”. Infelizmente, algo muito presente na cultura brasileira, inclusive nas promessas de campanha eleitoral. Querer resolver um problema desta ordem culpando o avanço da tecnologia é no mínimo obtuso.
Por outro lado, sabemos perfeitamente que os chineses se aproveitaram da ocasião para, em devolvendo as cargas “contaminadas”, forçar uma renegociação de contratos, buscando adquirir o produto a preços mais baixos, na linha das novas posições, agora baixistas, de Chicago. Ou seja, o recuo das cotações em Chicago se deve a outros motivos (projeção de plantio sobre uma área superior a 30 milhões de hectares na atual safra; clima normal nos EUA para o plantio; projeção de uma safra recorde em outubro ao redor de 80,7 milhões de toneladas; e redução no volume final a ser importado pela China) e não ao fato de cargas “contaminadas” estarem sendo devolvidas ao Brasil.
No entanto, os chineses podem, sim, ter aproveitado a oportunidade que nosso amadorismo ofereceu para, em acusando problemas na qualidade do produto comprado, exigirem radicalmente revisão dos contratos sob pena de buscarem soja em outros países, tais como a Argentina e os EUA (os dois outros fornecedores mundiais da oleaginosa onde, justamente, a transgenia mais se desenvolveu).
Enfim, diante de tamanha crise de oferta que vivemos neste ano, onde a seca no Rio Grande do Sul praticamente eliminou 50% da safra esperada, fica evidente, especialmente junto aos agricultores familiares, que foi graças a tecnologia do plantio direto e da transgenia que o prejuízo não foi maior. Em outros tempos, segundo os produtores rurais e os técnicos, a crise econômica seria muito mais séria e, para muitos, totalmente irreversível.
Desta forma, torna-se importante não confundirmos as coisas e muito menos usarmos determinadas realidades para outros objetivos que não seja o de realmente buscar ensinamentos com o ocorrido, de maneira a permitir avanços ao nosso agronegócio, absorvendo ao máximo a melhor tecnologia de ponta que a ciência possa estar nos oferecendo. Somente assim poderemos pensar em inclusão social com eficiência e resultados.
* Professor e Chefe do Departamento de Economia e Contabilidade (DECon) da UNIJUI (RS), doutor pela EHESS de Paris-França, pesquisador e analista da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA).