O resumo do discurso da nova equipe econômica brasileira, recentemente anunciada pela presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, é de que o país irá manter o tripé básico que sustentou a estabilidade econômica até agora, associado a, finalmente, um ajuste importante nas contas públicas. Ou seja, deverá haver menos gastos públicos em 2011. Ao mesmo tempo, anuncia-se que o objetivo é chegar ao final do novo mandato, em 2014, com uma taxa de juros real (Selic menos a inflação) de apenas 2%. Todas medidas louváveis e corretas, no contexto da atual realidade em que o Brasil vive. Todavia, entre o discurso e a prática existe uma distância a ser observada. Em primeiro lugar, há grandes dúvidas quanto a capacidade política do novo presidente do Banco Central a partir de janeiro próximo, Sr. Alexandre Tombini, enfrentar o entusiasmo gastador do ministro Mantega, mantido no cargo. O primeiro teste será já no início do ano (caso não seja feito ainda neste mês de dezembro), quando, diante de uma inflação que avança muito rápido, o BC se obrigue a aumentar o juro básico Selic (mecanismo inibidor da inflação). Tombini terá forças para isso? Em segundo lugar, continua presente o desafio maior de frear o aumento do gasto público, via reformas profundas no aparelho estatal e na economia como um todo. Caso contrário, não haverá como reduzir o juro real na proporção desejada pela presidente. Nesse sentido, é preciso lembrar que hoje o Brasil possui o terceiro maior déficit público bruto entre os países em desenvolvimento.
Equipe econômica: promessas e desafios (II)
Nossa dívida pública bruta atinge cerca de 67,2% do PIB neste final de 2010, sendo superada apenas pela Hungria (que já anunciou dificuldades) e a Índia. A título de comparação, a mesma dívida, no Chile, chega a apenas 4,4% e na China a 20%. Como se sabia, o estímulo ao consumo, dado pelo governo via BNDES (que recebeu uma injeção de R$ 100 bilhões) entre 2008 e 2009, estourou o caixa e compromete o futuro do país. A tal ponto que o próprio ministro Mantega prega, no momento, corte profundo nos gastos públicos. A questão é: o ministro vai realmente praticar o que diz? Em caso positivo, e é o que se espera numa perspectiva de futuro, o período de “vacas gordas” do consumo nacional, iniciado em 2009, terminou. Assim, 2011 será um ano bem mais apertado do que se imagina. Será o ano de se fazer economia. Como ficará, nesse caso, o quadro para quem já está com pouca liquidez e caminha para aumentar seu endividamento no final do ano? Para quem duvida destas preocupações, lembramos que a projeção dos principais analistas do mercado financeiro brasileiro, para 2011, dá conta de um PIB em 4,5% contra 7,6% em 2010. Uma expansão industrial que recuará de 11%, hoje, para apenas 5,4% no próximo ano (como manter empregos neste contexto?). O superávit comercial recuará de US$ 16 bilhões para US$ 8 bilhões no período, diante de um câmbio a R$ 1,75 em 2011. O déficit nas transações correntes subirá para US$ 68,1 bilhões, após US$ 50 bilhões em 2010. A nova equipe econômica terá que nos surpreender para enfrentar tudo isso!