Água e desenvolvimento sustentável. Esse é o tema central da Expo 2008, que se realiza em Zaragoza, Espanha. Recursos hídricos mobilizam a Europa, cada vez mais sedenta. Água, em todo o mundo, carrega preocupação.
A grande exposição mundial ocorre a cada dez anos. Lisboa, em 1998, abrigou a anterior Expo, cujo foco mirava os oceanos, intitulados “um patrimônio para o futuro”. Agora, pregando o uso sustentável da água, certamente um dos maiores desafios globais da humanidade, a Expo 2008 conta com 104 paises participantes e aguarda 6,5 milhões de visitantes. Vale a pena conhecer.
Zaragoza lidera a região de Aragón, no leste espanhol, separada da França pelos picos gelados dos Pirineus. Berço das principais nascentes ibéricas, em suas cordilheiras nascem o rio Tejo, que atravessa a Península para desaguar no estuário de Lisboa, e o rio Ebro, que corre para o sul, encontrando o Mediterrâneo.
Este, cuja bacia hidrográfica supera a do Tejo, tornou-se recentemente palco de enorme disputa política, devido à terrível seca que acometeu a região metropolitana de Barcelona. Na iminência de cinco milhões de pessoas ficarem sem água, sequer, para beber, o governo propôs um “transvase”, quer dizer, uma transposição, do rio Ebro. Enterrado ao longo da autoestrada que liga Terragona à Barcelona, um duto levaria o precioso líquido para saciar os catalões.
Os governos regionais de Murcia e Valencia, principais beneficiários naturais daquele manancial, reagiram fortemente, ameaçando levar o caso para o Tribunal Constitucional. Em Aragón, onde se localiza grande parte da bacia hidrográfica, ninguém gostou da idéia. Castilla y León igualmente se opôs ao tratamento diferenciado para Barcelona. A guerra d´água somente não ocorreu porque fartas chuvas caíram sobre toda a região espanhola entre abril e maio deste ano, elevando substancialmente o nível dos reservatórios. Benção dos céus.
Momentaneamente, os ânimos dos briguentos espanhóis se acalmaram. Mas o trauma da seca permanece. Barcelona investirá milhões de euros na instalação de três grandes dessalinizadoras, prevendo até 2012 garantir talvez 30% do abastecimento com água captada no mar. Além disso, sua maior estação de tratamento de esgotos já iniciou obras para recalcar, 50 km rio acima, a chamada “água de reuso”, retornando ao manancial, devidamente tratada, boa parte daquilo que aproveita para uso humano. Heterodoxia ambiental.
A proteção dos recursos hídricos está virando uma obsessão na Espanha. Ainda bem. Basta observar a falta de cobertura vegetal daquela região peninsular, dizimada especialmente desde o descobrimento da América. A devastação das florestas originou crescente desertificação. Para se ter uma idéia do estrago causado na erosão dos solos, basta verificar o acúmulo de sedimentos na foz do Ebro. Historiadores apontam que aquele conhecido delta era inexistente no século 15. Hoje sua planície litorânea adentra 50 km no mar. Idêntico fenômeno atingiu o estuário do Tejo. Caravelas navegavam lindas onde agora se enroscam bancos de areia.