José Magid Waquil,
Embrapa Milho e Sorgo
Francys M. F. Vilella,
Embrapa Cenargen
A lagarta-do-cartucho do milho (LCM), Spodoptera frugiperda (Smith), é um inseto polífago, podendo se alimentar de uma ampla variedade de plantas hospedeiras, incluindo várias espécies cultivadas. Entre as culturas mais importantes, destaca-se a do milho, sorgo, arroz, algodão, pimentão etc. Tanto no milho como no sorgo, os seus danos podem causar perdas de 17 a 38,7% na produção, dependendo do ambiente, da cultivar e principalmente do estádio de desenvolvimento das plantas atacadas. Sob determinadas condições, ela pode também atacar o coleto da planta causando sua morte e, neste caso, os prejuízos são ainda maiores. Devido à sua ampla distribuição geográfica e sua freqüente incidência ao longo do ano, como também sua reincidência em todos os anos, a LCM constitui-se numa das principais pragas na cultura do milho. No Brasil, estima-se que a LCM seja responsável por mais de 25% dos prejuízos causados por pragas ao milho e pela maior parte dos 38,3 milhões de dólares gastos com pulverização de inseticidas, resultando num prejuízo anual de aproximadamente 250 milhões de dólares. Para o manejo dessa espécie, são recomendadas várias estratégias incluindo métodos culturais e biológicos, entretanto, o que mais se tem utilizado são os métodos químicos através do tratamento de sementes e pulverizações que variam de duas até 12 vezes para cada ciclo da cultura.
A resistência genética de plantas a doenças e pragas, através da seleção natural ou dirigida, vem sendo intensivamente utilizada pelo homem, desde que as plantas foram domesticadas, há mais de 11 mil anos. Na literatura, há registro de várias fontes de resistência genética do milho aos insetos-praga. Destacam-se como fontes de resistência à LCM os genótipos do grupo “Antigua”. Milhos tropicais como CMS 23, CMS 14C e CMS 24 foram identificados na Embrapa Milho e Sorgo com níveis razoáveis de resistência à LCM e vêm sendo incluidos nos programas de melhoramento genético tradicional. Fatores da planta que inibem o desenvolvimento e preferência das lagartas pelos tipos resistentes são citados como os mecanismos de resistência do milho à LCM. Nos últimos 15 anos, mais de 30 cultivares de milho resistentes a lagartas foram registradas e distribuídas, entretanto, a maioria dessas fontes de resistência é proveniente do grupo “Antigua” e tem a base genética muito estreita e níveis limitados de resistência. Outras fontes, com alto nível de resistência à LCM, não têm sido encontradas.
Recentemente, com o desenvolvimento das técnicas de engenharia genética, viabilizando, inclusive, a transformação do milho, o conjunto de genes disponíveis para serem utilizados como fonte de resistência aumentou drasticamente, incluindo espécies evolutivamente distantes. Isso quebra o paradigma até então utilizado na pesquisa de resistência de plantas que era limitado à mesma espécie. Um esforço tremendo tem sido feito para desenvolver plantas expressando o gene bt, clonado da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt.), que codifica uma proteína tóxica. Essa espécie de bactéria produz a d-endotoxina, que tem ação tóxica sobre um grande número de espécie de insetos que passam pela fase de lagartas.
A bactéria Bacillus thuringiensis (Bt.) foi encontrada pela primeira vez causando doença em bicho-da-seda, no Japão, por volta de 1900. Como bioinseticida, essa bactéria vem sendo utilizada desde de 1920, em todo o mundo, sem causar qualquer problema aos produtores, consumidores ou ao ambiente. A limitação para sua maior participação no mercado se deve ao alto custo de produção e à instabilidade dos resultados obtidos no campo. Mesmo sendo o Bt. efetivo no controle de várias espécies de pragas do milho, conforme seu registro de uso, a eficiência das estirpes, hoje comercializadas, sobre a LCM é baixa. O que causa a morte a determinados grupos de insetos (lepidópteros) são vários tipos diferentes de proteínas, que se acumulam na bactéria na forma de um cristal, daí essas toxinas serem denominadas de “Cry” que é a abreviatura da palavra inglesa “Crystal”. Hoje, conhecem-se milhares de raças do Bt. com dezenas de diferentes toxinas. Entretanto, até então, as toxinas do Bt., incorporadas ao milho, são quatro: Cry 1A(b), Cry 1A(c), Cry 9C e Cry 1F. A transgenia tem sido uma tecnologia amplamente aceita em vários países do mundo e, em seis anos de existência, já atingiu cerca de 60 milhões de hectares (Figura 1). Entretanto, no Brasil, a introdução dessa tecnologia encontra-se sob avaliação.


