Depois de anunciar que a inflação estaria sob controle e de que não haveria necessidade de aumentar os juros básicos no país, o governo brasileiro cai na realidade.
Assustado com os acontecimentos na Europa, onde a dívida pública está inviabilizando a economia de alguns países, a começar pela Grécia, e pela disparada da inflação em países onde o populismo político imperou nos últimos anos, caso da Argentina onde a inflação anualizada oficial já está em 25%, anuncia-se agora cortes de despesas públicas, além da continuidade nos aumentos do juro.
Na prática, a economia brasileira, apontando para um crescimento de 6% em 2010, está aquecida em demasia e a inflação está saindo do controle. Isso porque o país não possui estrutura para suportar um crescimento anual deste porte, sem gerar forte inflação.
A falta de investimentos consistentes na infraestrutura nacional, somada a baixa poupança que temos nos impede de irmos mais longe com nossa economia. Aliás, as medidas restritivas deverão provocar uma freada no crescimento, particularmente para 2011, confirmando nossos alertas.
Assim, embora tardiamente, o governo parte para cortes de gastos.
Governo acorda tardiamente (II)
Dito de outra maneira, a economia nacional não pode suportar um crescimento anual acima de 5% sem estourar a indesejada inflação. A retenção de mais R$ 10 bilhões do orçamento público, perfazendo um total de R$ 31,8 bilhões (1% do PIB) é a meta oficial com o objetivo de conter a inflação em 2010.
O problema é que se deixou avançar “a doença” em demasia, num ano eleitoral, onde tais medidas poderão não ser efetivamente praticadas, além de serem insuficientes para o tamanho do complicador que se gerou.
Desta forma, o futuro governo, a ser eleito em outubro/novembro próximos, deverá herdar um sério problema de gestão pública logo de saída. Ou seja, o fato de termos reduzido fortemente o superávit primário em 2009, visando conter a crise, nos traz agora a conta a ser paga.
E o pior é que o mercado tem dúvidas se em 2010 o país conseguirá atingir um superávit primário de 3,3% inicialmente projetado e que estaria perto do ideal (fala-se na obtenção de 2,4% apenas). Consumir é bom e necessário, porém, desde que a economia possua estrutura para tal.
Caso contrário, os efeitos colaterais do processo acabam sendo, no longo prazo, muito mais graves do que as vantagens imediatas do remédio adotado.
Mais uma vez a Argentina
Combalida por uma crise importante, motivada pela péssima administração pública dos governos Kirschner, onde a inflação dispara e falta produtos até mesmo de consumo corrente, a Argentina se volta novamente contra o Mercosul e o Brasil, visando encontrar soluções que, na verdade, estão na sua própria economia interna.
A bola da vez são os alimentos industrializados importados e que possuem similares no mercado interno local. Assim, latas de milho, embutidos de carnes, derivados de leite e outros produtos brasileiros passariam a sofrer uma taxação quando da entrada em território argentino, penalizando os consumidores locais, já que os preços internos deverão subir, em troca de apoio a determinados setores industriais e seus empregos.
Tais medidas, que se somam a outras tantas aplicadas nos últimos cinco anos, compromete mais ainda a resistência do Mercosul, caro ao Brasil, além de azedar as relações comerciais entre os dois países. Uma retaliação comercial brasileira, que parece ser normal nestes casos, afetaria ainda mais a sobrevivência do já enfraquecido Mercosul.
Isso compromete a presença da região no cenário mundial, justamente num momento em que mais se precisaria de união regional. Na prática, o livre-comércio é muito bom até o momento em que os países, por incompetência das suas gestões públicas, se enredam em crises econômicas importantes.
Aí, a primeira reação é voltar ao velho protecionismo de mercado, travando o comércio, encarecendo os produtos locais e enfraquecendo as economias regionais.
Balança comercial mais negativa
Encerrada a primeira semana de maio, os resultados da balança comercial brasileira confirmam os efeitos nefastos da sobrevalorização do Real sobre nossas vendas externas.
O total exportado no ano ficou em US$ 58,39 bilhões, contra importações de US$ 55,70 bilhões, fato que deixa o saldo comercial total em apenas US$ 2,69 bilhões, contra US$ 7,23 bilhões no mesmo período do ano passado, momento em que a crise mundial atingiu seu ápice.
A média por dia útil do saldo de maio de 2010 ficou 21,2% abaixo da média de maio de 2009. Enquanto isso, a média por dia útil do acumulado do ano, até o dia 08 de maio, é 62,8% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. Espera-se que as coisas melhorem um pouco a partir de agora com o aumento das exportações de produtos primários, particularmente do “complexo soja”.
Todavia, é bom lembrar que os preços internacionais estão, em média, 18% mais baixos do que os praticados em 2009. Neste contexto, o saldo comercial final no Brasil, em 2010, deverá mesmo ficar ao redor de US$ 11 bilhões, ou seja, menos da metade do obtido no ano passado.