Diante da aceleração da inflação e da constatação de que o excesso de crédito direcionado ao consumo está gerando um processo de inadimplência importante, finalmente o governo se convenceu de que era preciso agir para manter a estabilidade da economia. Na verdade, devido as eleições presidenciais, a ação oficial foi perigosamente postergada até este final de 2010. Por outro lado, decidiuse agir agora visando livrar o novo governo de ter que atuar com medidas impopulares já no seu início. Na verdade, pelo lado econômico, nossos alertas se confirmam. O Brasil injetou muito dinheiro público na economia, buscando protegê-la da crise mundial. Todavia, não praticou a contrapartida necessária, ou seja, não controlou os demais gastos públicos. Em outras palavras, a gastança oficial continuou, enquanto o Estado injetava cada vez mais recursos na economia para fazê-la andar. O resultado de curto prazo foi um sucesso: a economia deverá fechar 2010 com um PIB ao redor de 7,6%; a taxa de desemprego recuou a níveis que não eram vistos há muito tempo; e o mercado interno aqueceu, graças a um forte consumo das classes D e C. Com isso, nos tornamos um país de classe média. Politicamente, o governo Lula capitalizou o resultado. O problema é que nada foi feito para sustentar esse movimento de forma estrutural. E quando isso acontece, a conta chega rápido para a sociedade. No longo prazo, esta herança do atual governo será amarga e de lenta digestão. Os primeiros remédios começam, portanto, a serem ministrados.
Governo reage (II)
Assim, diante do perigo da bolha estourar e provocar uma desestabilização da economia, o governo decide adotar medidas que retiram dinheiro de circulação, sem mexer, por enquanto no juro básico. Embora tardia, a reação é positiva e deve surtir efeitos imediatos. Isso não significa que não haja elevação do juro básico. Apenas se criou condições para se retardar o aumento da Selic. O aumento do compulsório dos bancos e do custo dos financiamentos de longo prazo, a partir do próximo dia 13/12, é um primeiro passo na direção do ajuste. Com isso, a tendência é o consumo frear e a inflação, aos poucos, recuar para níveis mais próximos da meta anual de 4,5% (medida pelo IPCA). Entretanto, outras medidas mais duras, além do aumento dos juros, terão que ser realizadas no transcorrer de 2011. Desta forma, confirma-se a tendência de que o próximo ano será de arrocho, embora o governo central emita sinais contraditórios a respeito. No geral, a conta está sendo transferida para a sociedade, e principalmente para os mais pobres, como sempre acontece nestes casos, sem que se note um movimento concreto de corte profundo nas despesas públicas. Isso hipoteca possíveis reformas na economia e no funcionamento do Estado, embora o discurso do novo governo caminhe para esse lado. Na prática, não há mais espaço para o governo brasileiro continuar a sustentar o consumo interno, pois a economia mundial demora em sair da crise e os efeitos internos das medidas adotadas, a começar pela inflação, passaram a cobrar seu preço. Um novo tempo econômico começa!