Existe contradição entre desenvolvimento e meio ambiente? Aqui está a questão fundamental do século 21. No passado, a ideologia do progresso subordinou a Natureza ao crescimento econômico. Hoje, com as mudanças climáticas, a nave Terra dá seu troco.
Foi José Lutzemberger, no Brasil, quem melhor utilizou o conceito da “nave finita” para denunciar a dilapidação dos recursos naturais. No Manifesto Ecológico, publicado em 1976, o agrônomo gaúcho afirmava que o homem, promotor do crescimento desenfreado, carregava consigo o germe da destruição.
O ecologismo, quando surgiu, se opôs ao paradigma econômico que dominava tanto o capitalismo quanto o comunismo. Nada distinguia os crimes ambientais cometidos pelos EUA daqueles provocados pela antiga União Soviética. Ambos os regimes eram “produtivistas”. Segundo os marxistas, o avanço das forças produtivas se justificava em nome do proletariado. Opor-se era coisa da burguesia.
Já os liberais veneram o lucro, motor da competição empresarial. Restringi-lo, como querem os ambientalistas, soava heresia. Na época da Guerra-Fria, políticos da direita diziam que os ecologistas eram como melancia: verdes por fora, vermelhos por dentro. Ora, nem esquerda nem direita entenderam direito o surgimento do movimento ecológico.
Na Idade Média, as trevas do sobrenatural comandavam o mundo. Após o Iluminismo, surge o método científico e se valoriza a racionalidade, contra o desígnio divino. Nasce assim o Humanismo, doutrina que coloca o homem no centro do Universo. Acaba o feudalismo, começa o mercantilismo.
Séculos se passam. Surge a industrialização. Explode o crescimento populacional. A tecnologia avança extraordinariamente. Já no século 20, o antropocentrismo derrapa na prepotência. Se, no passado obscurantista, o homem não apitava nada, e tudo era impingido por forças superiores, com o desenvolvimento tecnológico se imaginou, ao contrário, que o homem tudo poderia. Humanismo mais tecnologia resultou na “religião do progresso”. Um equívoco atroz.
A História ajuda a entender o presente. Os índios não eram preservacionistas, nem poderiam ter pensamento ecológico. Mas o avanço da tecnologia e o crescimento populacional geram forte pressão sobre os recursos naturais do Planeta. Assim, a degradação ambiental passa a constituir um sério problema para a humanidade.
O efeito-estufa, uma verdade inconveniente, segundo Al Gore, é simbólico para causar um despertar definitivo, talvez a última chance. Nenhuma ideologia, nenhum sistema, nenhuma religião, tem sido capaz de enfrentar o dilema da sobrevivência humana. Chegou a hora de formular novo conceito, um humanismo ecológico. A razão, sim; a ciência, sim; a arrogância, não.