Nesta última semana notou-se uma recuperação anormal nos preços das commodities em geral, com o petróleo chegando a US$ 77,00/barril (maior preço desde março), a soja em Chicago ganhando US$ 1,25, batendo em US$ 10,00/bushel, o trigo chegando a US$ 5,13/bushel (valor que não era visto desde o início de agosto passado) e assim por diante. Na prática, nada mudou na relação entre a oferta e a demanda.
Ou seja, os aumentos não se devem aos elementos normais de mercado. O que está por trás do movimento, mais uma vez, é a compensação cambial. Portanto, um motivo monetário! Em outras palavras, o fato é que os EUA estão usando o mecanismo de deixar desvalorizar deliberadamente o dólar como um dos instrumentos de saída da atual crise.
Com isso, os preços das commodities mundiais, que são estabelecidos em dólares, perdem valor. Para compensar esta perda de ganho pela perda de valor da moeda estadunidense, a especulação presente nas diferentes Bolsas e mercados eleva o preço dos produtos em dólares. Assim, se cria um aumento artificial nos preços das mercadorias, fato que tende a se reverter rapidamente, causando estragos nas diferentes economias. Esse cenário já foi visto no ano passado e foi uma das consequências diretas da crise mundial que vivemos até hoje.
Como se percebe, o mundo não demonstra ter aprendido as lições da crise e, apesar das reuniões multilaterais do G20 e dos alertas enviados pela economia, volta-se a incorrer nos mesmos erros anteriores. Em seguindo desta forma, a saída da crise se tornará um retorno à mesma rapidamente.
Guerra monetária
A preocupação que chegamos a explicitar neste espaço, retratando a preocupação de muitos economistas mundo afora, começa a se confirmar. A saída da crise, para muitos e particularmente os EUA, está passando pela desvalorização, mais uma vez, de sua moeda. Isso está gerando uma guerra monetária a qual alimenta uma guerra comercial. Já fragilizado pelo recuo da economia dos EUA diante da crise, o dólar não encontra sustentação oficial, levando os investidores internacionais a buscar outras paragens.
A China, que detém quase US$ 1,0 trilhão em títulos do governo dos EUA em sua poupança, também está provocando uma desvalorização de sua moeda, visando não perder competitividade. Por outro lado, a grande maioria dos países, inclusive o Brasil, assiste a uma sobrevalorização de sua moeda (o Real chegou a bater em R$ 1,69 nesta semana), fato que tira competitividade de nossos produtos vendidos no exterior e alimenta a importação, causando estragos na balança comercial do país e nas contas nacionais.
Na União Europeia a situação é semelhante com o euro, que está se valorizando rapidamente e tirando a possibilidade, com isso, da região sair da crise já que muito desta saída depende das exportações. No caso brasileiro, tal realidade irá ser sentida com mais intensidade nos próximos meses, em o processo continuando, já que o fôlego estatal de injetar recursos na economia terminou e as exportações não retomam.
Isso implicará em menor crescimento econômico do que o previsto para 2010 (o governo, de forma otimista, espera que nosso PIB chegue a 3,5% de aumento no próximo ano).
Terminou o fôlego estatal
Como se previa, o governo brasileiro está no fim de suas condições econômico-financeiras de sustentação da economia nacional, diante da crise mundial que vivemos. Os gastos públicos foram elevados, a renúncia fiscal foi importante, e as reservas internas se esgotam (não confundir com as reservas cambiais).
Isso permitiu um aumento considerável do consumo interno, diante de uma demanda reprimida, fato que deverá evitar que terminemos 2009 com crescimento negativo. Todavia, além do aumento da dívida pública e do alto endividamento, com potencial inadimplência das famílias brasileiras, o processo não parece ter sido suficiente para estimular o retorno, a contento, do crédito privado ao mercado.
Assim, enquanto o governo dá nítidos sinais de que o fôlego terminou, ao devolver os impostos ao setor automobilístico, à linha branca e outros setores da economia, sem falar no represamento da devolução do Imposto de Renda aos cidadãos e na tentativa de criar ou recriar impostos, caso da poupança e da antiga CPMF, o mercado parece ainda não estar recuperado o suficiente para caminhar sem a muleta estatal.
O impacto desta nova realidade, previsível, poderá nitidamente ser sentido em 2010, quando se esperaria uma recuperação da economia, particularmente se o setor externo realmente demorar a retomar, como parece ser o caso. Resta saber se o governo brasileiro, por ser um ano eleitoral, conseguirá gerar mecanismos compensatórios a esse entrave.
O desafio é fazê-lo sem entrar num populismo que venha a desestabilizar a economia nacional e por à terra o que se conquistou nos últimos 15 anos.
O Real novamente sobrevalorizado
Tomando-se por referência a paridade de poder de compra de janeiro de 1999, momento em que o Brasil passou a adotar o modelo de câmbio flutuante, chegamos ao valor de R$ 2,16 por dólar para que nossa moeda se encontre em um patamar “normal” em relação a moeda dos EUA.
Ora, ao bater em R$ 1,69 por dólar nesta semana, a mesma acusa uma sobrevalorização de 27,8% no momento. Não é por acaso que os produtos de exportação estão perdendo valor em reais, a começar pela soja.