A crise econômico-financeira, iniciada em agosto de 2007, cada dia que passa traz a todos nós maiores consequências negativas, as quais se acumulam e confirmam que a mesma, salvo casos específicos, é profunda e duradoura, apesar do atual governo brasileiro insistir em descaracterizá-la. O necessário socorro dos Estados visando dar liquidez a uma economia em queda livre, como o previsto, acabou adicionando gasolina à fogueira da crise, pois tornou ainda mais crítica a dívida pública, gerando uma crise fiscal de proporções mundiais. O estouro ocorrido nos chamados PIIGS no início do ano, tendo a Grécia como referência, se espalha agora para os países desenvolvidos de forma definitiva. Isso exige reformas duras e estruturais, que populações acostumadas a viver às custas do Estado reagem contra. É o caso da França, que trabalha para aumentar a idade mínima de aposentadoria de seus cidadãos, e a revolta popular que lá se estabeleceu a respeito. Temos também a Grã-Bretanha que acaba de anunciar que seu déficit público alcançou a 11% do PIB, o maior da história. Para iniciar um processo de correção, o Parlamento local anuncia o corte de 490.000 empregos públicos nos próximos quatro anos. Neste espaço e em outros momentos, há mais de ano, estamos alertando que isso ocorreria, pois os Estados não possuem condições de substituir o mercado de forma permanente, especialmente num momento em que as populações vivem mais e envelhecem. Tal realidade atinge a todos!
Não foi por falta de aviso (segundo ato) (II)
É de preocupar, nesse sentido, a falta de ação dos brasileiros a respeito. Mesmo com o déficit público caminhando para quase R$ 2 trilhões ou 2/3 do PIB, em plena campanha presidencial, nada é discutido a respeito. Ora, nessa balada, países como o Brasil, se tornam a “bola da vez” e o estouro da crise fiscal se dará logo aí na frente. E nada estamos fazendo em termos de reformas estruturais para evitar tal acontecimento. Os exemplos de boa parte do mundo, em especial dos países desenvolvidos, muitos inclusive “inventores” do chamado Estado do Bem-Estar Social, estão sendo solenemente ignorados em nosso país. Ora, a crise fiscal mundial é um fato, assim como a guerra cambial, e precisamos enfrentá-la rapidamente (faz 16 anos pelo menos que se fala da necessidade de reformas do Estado brasileiro). A cada ano que passa sem esse importante ajuste, mais caminhamos para o retrocesso, comprometendo a estabilidade econômica, que se conseguiu arduamente, sem falar no futuro das novas gerações.
Juro básico: uma sinuca de bico
O Copom acaba de manter o juro básico (a Selic) em 10,75%. Aparentemente uma decisão sensata, porém, apenas aparentemente. Isso porque o Brasil se encontra, a respeito, diante daquilo que popularmente se chama “sinuca de bico”. Tecnicamente, o juro básico serve como instrumento para controlar a inflação e, através dele, cumprir a meta inflacionária (4,5% ao ano pelo IPCA). Ora, a inflação voltou a pressionar, indicando um potencial perigoso para 2011. Mirando apenas as eleições presidenciais, o Copom parece ter se curvado ao curto prazo, e está transferindo a responsabilidade de novos aumentos de juro para o novo governo. Esta é a tendência clara: se não quiser comprometer a estabilidade, o futuro governo, diante do aquecimento da economia nacional em 2010, boa parte provocado pelo próprio apoio estatal, terá que necessariamente elevar a taxa Selic ainda nos primeiros meses do próximo ano. Afinal, a ideia é segurar a economia num crescimento de 5% ao ano, no máximo, pois mais a estrutura do país não suporta.
Juro básico: uma sinuca de bico (II)
Todavia, juros altos igualmente atraem capitais externos, em especial os especulativos, fato que sobrevaloriza o Real (estaríamos hoje com uma sobrevalorização de quase 40% se considerarmos a paridade de poder de compra). Assim, para evitar novas entradas de dólares se evita, igualmente, de aumentar a Selic. Ocorre que, por não fazermos nossas reformas estruturais (cedemos a interesses específicos de grupos privilegiados), precisamos, contraditoriamente, que continue entrando dólares no país para rolarmos a nossa dívida pública, que não pára de crescer, pois o governo segue aumentando seus gastos, até de forma irresponsável em muitos setores. Em síntese: o problema estrutural está na imperiosa necessidade de enxugarmos o custo do Estado, como outros países do mundo começaram a fazer. Isso permitirá reduzir a dívida pública, reduzir nossa necessidade de capital externo, e reduzir o juro básico sem pressionarmos a inflação interna. Nesse contexto, pobre Brasil se não tivermos governos capazes disto realizar, daqui em diante!