O Brasil continua sendo um dos países que pratica os maiores juros reais do mundo. Agora que a tendência é fecharmos o ano com a Selic em torno de 11%, nosso juro real básico, para 2010, deverá ficar em 6,5%, considerando que a inflação oficial (IPCA) fique em 4,5% no final do ano. Se olharmos apenas esses números, poderíamos considerar que estamos diante de uma taxa aceitável de juro, para uma economia que cresceu, no primeiro semestre, acima de 8%. Entretanto, o problema que tais juros não refletem aquilo que efetivamente vem sendo praticado no mercado. Exceção feita a alguns setores da economia, que possuem favorecimento na cobrança de juros, caso do setor agropecuário, os demais pagam taxas enormes. Segundo o Banco Central, agosto iniciou com o juro anual do cheque especial atingindo a 167,3%; o do cartão de crédito ultrapassando de longe os 200%; o da conta garantida em 91,8%; o do crédito pessoal em 42,2%; o do desconto de duplicata em 41,1%; a taxa média da pessoa física em 40,5%; o de capital de giro em 29,9%; a taxa média da pessoa jurídica em 28,7%; o da compra de veículos em 24%; e a taxa média geral em 35,4% (incluindo também outras operações com crédito livre). E os mesmos vêm se elevando na linha do aumento da Selic, embalados ela disparada do spread (diferença entre a taxa paga pelos bancos na captação e a cobrada para emprestar). Nessas condições, é de impressionar que os brasileiros continuem comprando a crédito e, em muitos casos, se valendo do cheque especial.
O Abuso dos Juros (II)
Impressiona mais ainda o fato de que a inadimplência se mantenha, por enquanto, ao redor de 5% (dados de julho). Porém, em hipótese alguma deve impressionar os lucros dos bancos no Brasil, estatais e privados, mesmo em período de crise como o que estamos vivendo desde agosto de 2007 no cenário internacional. Afinal, captar via poupança o dinheiro da população, pagando um juro anual ao redor de 8% e emprestar dinheiro, via cheque especial, a juros anuais superiores a 167% é uma mina de ouro. E isso acontece num país ainda subdesenvolvido, que precisaria de mais recursos, e com menos custos, para investir em infraestrutura e melhorias em geral da qualidade de vida de seus cidadãos. E, o pior, é que não é de hoje tal prática. Isso explica, igualmente, porque o país não consegue sair do crescimento para o desenvolvimento econômico. Ou seja, diante do abuso histórico do sistema financeiro sobre o sistema produtivo, mesmo com a intervenção estatal em determinados momentos, nossos bancos não trabalham como alavancadores da produção nacional, assumindo também, mesmo que parcialmente, os riscos dos empreendimentos financiados. E o pior é que boa parte deste movimento se deve ao próprio governo, que sustenta a dívida pública em crescimento via venda de títulos públicos indexados, em parte, na Selic. Hoje, os juros reais mais elevados do mundo geram uma despesa pública anual de 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB), algo próximo de R$ 160 bilhões ao ano. Uma transferência enorme de renda de toda a sociedade para o setor financeiro e os rentistas.