A pressão que o Brasil vem sofrendo em sua economia, nos últimos meses, com reflexos diretos na cotação do real, que chegou a se elevar ao redor de R$ 3,60 em determinado momento, tem motivos diversos, porém, todos eles imbricados e com um ponto de origem comum: a falta de recursos para honrar os vencimentos mensais das dívidas interna e externa.
Assim, é verdade que a chamada crise de pagamentos tem um componente externo que está ligado à crise regional, iniciada na Argentina e com prosseguimentos no Uruguai, e sobretudo à crise no mercado acionário dos EUA, com o engodo dos balanços das principais empresas daquele país. Isto retrai investimentos e, por conseqüência, reduz as linhas internacionais de crédito. Igualmente temos o componente de política interna, com as eleições presidenciais apontando para uma vitória de um candidato dito de oposição, o qual poderia não honrar os compromissos externos e, por conseguinte, encaminhar o país para uma moratória, haja vista os discursos feitos no passado. Isto alimentou ainda mais o receio dos credores internacionais em continuar emprestando ao Brasil, inclusive no que diz respeito a abertura de linhas de crédito para as exportações. No bojo deste contexto, há ainda o componente especulativo pelo qual sempre encontramos alguns agentes econômicos interessados em tirar proveito de tais situações extrapolando, de forma fictícia, as causas reais do problema.
Neste sentido, o acordo com o FMI, que potencialmente injeta US$ 30 bilhões em nossa economia nos próximos 15 meses, a contar deste mês de setembro de 2002, foi fundamental. Afinal, ele abre uma nova linha de crédito junto ao avalista do capital internacional, de forma a que o país ganhe fôlego para administrar seus déficits externo e interno. O que podemos lamentar neste episódio é que estamos, mais uma vez, captando um dinheiro externo, mesmo que barato, para fechar os rombos econômicos criados pelo fato de insistirmos em viver acima de nossas possibilidades (gastamos mais do que arrecadamos, tanto em nível externo, medido pela balança de transações correntes, quanto em nível interno, medido pela dívida pública). Não estamos captando recursos para novos investimentos, especialmente na lógica de melhorarmos a realidade sócio-econômica do país.
Tal realidade nos remete ao foco do problema. Ou seja, mesmo que aparentemente os fundamentos da economia nacional sejam sólidos, é muito mais verdadeiro ainda que tem nos faltado dólares para rolarmos nossas dívidas externa e interna. Ora, o fato de não conseguirmos fechar as contas no final de cada ano exige cada vez mais recursos externos (a poupança alheia) que, em momentos de dúvida ou de recuo na economia internacional, se retrai. Esta diminuição da oferta de dinheiro externo (dólares) leva a um aumento do valor desta moeda, depreciando o real.
No caso das contas externas, a elevação do dólar até acabou auxiliando pois está provocando um salto enorme no superávit da balança comercial, o qual irá diminuir as nossas necessidades de caixa para fechar a balança de transações correntes no final do ano. No atual ritmo, ficaremos com um saldo comercial próximo a US$ 10 bilhões no final de 2002. Assim, para este ano a situação estaria resolvida e, para 2003, bem encaminhada (tudo dependendo do que irá fazer na prática o novo governo). No entanto, a questão se agrava quando olhamos a dívida interna. Com a ausência de reformas internas, que deveriam redimensionar o Estado (reformas tributária, previdenciária, administrativa etc...) continuamos a gastar muito mais do que arrecadamos e o rombo final continua a aumentar. É isto que leva o FMI a exigir o ajuste estrutural tão criticado por muitos neste país. Um ajuste necessário mesmo que penalize inicialmente a economia nacional pois reduz momentaneamente a participação do Estado na economia. É isto que leva, “in extremis”, o atual governo a lançar mão novamente de Medidas Provisórias para realizar o que se está chamando de mini-reforma tributária (as verdadeiras e necessárias reformas ficarão para o novo governo e esperemos que as faça). Paralelamente, esta situação não permite reduzir os juros pois o Estado necessita captar constantemente recursos através da venda de títulos públicos a juros convidativos. E os juros não recuando cresce o montante da dívida global, num círculo vicioso terrível. Além disso, juros elevados atraem dólares do exterior, auxiliando a irrigar a economia, mesmo que seja com capitais voláteis (extremamente perigosos como já vimos).
Por outro lado, como nossa economia vive muito na dependência de produtos importados (medicamentos, petróleo, insumos agrícolas, trigo etc...) os preços dos mesmos sobem pois comprados em dólares. Isto eleva a inflação nacional comprometendo a estabilidade econômica que está centrada naquilo que se chama de “meta inflacionária”, ou seja, uma inflação anual que não deveria superar os 6,5% neste ano de 2002 (medida pelo IPCA-IBGE). Na impossibilidade imediata de se obter novos créditos externos, apesar dos esforços do governo, dos investimentos externos diretos, do acordo com o FMI e dos acordos políticos realizados com os candidatos à presidência da República (fato que os leva a sinalizar que continuarão cumprindo os acordos com o Fundo e respeitando as dívidas com os credores externos) o dólar demora para voltar a patamares mais realistas (entre R$ 2,60 e R$ 3,00) pois o centro do problema somente será resolvido quando de fato a Nação atacá-lo diretamente: controlar os gastos e aumentar as receitas diminuindo a necessidade de recursos externos. Ou seja, não podemos depender continuamente de um volume sempre crescente destes recursos, concorrendo com a grande maioria das Nações do mundo pelos mesmos, sob pena de enfrentarmos de forma cada vez mais constante crises econômicas que seguidamente têm seu epicentro no exterior. Sobretudo hoje em que a interdependência entre os países é cada vez maior e irreversível neste mundo globalizado.
Somente assim poderemos afrouxar as políticas fiscais, monetárias e outras, contribuindo para as condições de um crescimento econômico substancial e melhor desenvolvimento nacional. Enquanto tal reação não chega, somos obrigados a realizar, nas atuais circunstâncias, exatamente o contrário: apertar a política monetária e fiscal, retirando recursos de circulação, para evitar que a inflação fuja ao controle. Ao fazer isto, o crescimento econômico estanca, e mesmo diminui rapidamente, e com ele o desemprego e a tensão social se fazem mais presentes.
O novo governo a ser eleito, qualquer que seja ele, terá pela frente este desafio: criar as condições para que o país volte a crescer, com menor necessidade de recursos externos, sem comprometer a estabilidade econômica, que tem na inflação reduzida um de seus pontos máximos.