O comércio brasileiro está cheio de armadilhas para os consumidores. E datas festivas como a Páscoa, que acaba de passar, são as preferidas para pô-las em prática. Neste ano se cristalizou uma prática já conhecida. Aproveitando-se da sensibilidade familiar em torno do chamado “coelho da Páscoa” as empresas de chocolates colocaram no mercado os conhecidos “ovos de Páscoa” com preços muito acima do normal.
Assim, tirando o consumidor consciente e esclarecido em preços, que optou pela compra de “ovos de chocolate” para presentear seus familiares e conhecidos em função da simbologia do ato, os demais consumidores brasileiros (a grande maioria) foram literalmente enganados, para dizer o mínimo.
Isso porque, ao optarem pelos “ovos de chocolate”, acabaram pagando até quatro vezes mais do que o próprio chocolate valia. Dito de outra maneira: um quilo de chocolate sob forma de “ovo de Páscoa” foi posto à venda com preço até quatro vezes maior do que o quilo do mesmo chocolate, com a mesma marca, vendido sob forma de barras tradicionais. E a alegação de que alguns “ovos de Páscoa” traziam alguns “recheios” não justifica tamanha diferença de preço.
Ou seja, as empresas “chocolateiras”, do alto do oligopólio que caracteriza o setor, aproveitaram-se da efeméride para ganhar mais, concentrando renda a partir do descuido e falta de informação de grande parte dos consumidores.
O descuido fatal (II)
E isso tem ocorrido nos mais diferentes setores ao longo dos anos. No caso do chocolate, alguns exemplos, conforme pesquisa realizada no final de março junto ao grupo Pão de Açúcar e já amplamente divulgada (tais disparidades foram encontradas em praticamente todos os locais brasileiros, não importando a cadeia de supermercados e lojas): o quilo do ovo de chocolate Bis era de R$ 77,58, enquanto o mesmo produto vendido em barras custava R$ 19,93/quilo.
Ou seja, a opção pelo ovo custou quatro vezes mais ao consumidor, pelo mesmo produto, somente embalado de forma diferente. No caso do Sonho de Valsa, o quilo do ovo era de R$ 65,85 enquanto o quilo dos tradicionais bombons ficava por R$ 32,48. O ovo pascal da marca Crunch registrou um valor de R$ 103,75/quilo, enquanto o produto em barras tinha o seu quilo vendido a R$ 24,94 (diferença superior a quatro vezes).
O mesmo ocorreu com o ovo Nestlé, cujo quilo chegou a R$ 105,29, enquanto as barras do mesmo chocolate eram vendidas a R$ 26,19/quilo. Já o produto Talento teve o ovo pascal vendido a R$ 85,31/quilo, contra R$ 24,50/quilo dos seus tradicionais tabletes.
Os produtos com menor diferença superaram em duas vezes o preço da apresentação tradicional. E mesmo assim, os estoques de “ovos de chocolate” foram quase esgotados no varejo nacional. Ações como estas ajudam a explicar nosso subdesenvolvimento e demonstram o quão necessário está sendo nossa sociedade avançar no conhecimento econômico e financeiro.
O desemprego é maior
Infelizmente as estatísticas atuais estão confirmando uma realidade que vinha sendo escondida, porém, bem conhecida. O desemprego no Brasil é bem maior do que os índices oficiais anunciam.
Em outras palavras, a crise econômica foi efetivamente muito forte no país. Além do aumento da economia informal, que já ocupa mais de 50% da mão-de-obra ativa do país, se nota agora que, exceção feita à Grande Porto Alegre, as demais capitais brasileiras pesquisadas apresentaram um aumento na taxa agregada de desemprego, em fevereiro, passando a 13% contra 12,6% em janeiro.
Para analistas, isso se explicaria pelo fato de que a recuperação da economia está levando mais gente a procurar emprego, o que as coloca de volta nas estatísticas. Ou seja, muita gente, durante a crise, deixou de procurar emprego fato que as retirou das estatísticas de desemprego nacional, favorecendo a manutenção de números relativamente baixos.
Os mesmos deram a ilusão de que a economia estaria suportando bem a crise, o que não foi exatamente o caso. Por outro lado, outro problema se apresenta. Mesmo na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde o emprego apresentou leve recuperação em fevereiro, os rendimentos dos trabalhadores recuaram.
Isso é: melhorou o nível de emprego, porém, os rendimentos caíram. No caso da capital gaúcha, a queda foi de 2,8% para os assalariados, em fevereiro, segundo o Dieese.
Leite: mais uma vez o oligopólio
No ano passado, entre maio e agosto particularmente, os preços do leite longa vida (caixinha) aos consumidores gaúchos chegaram a aumentar em mais de 70%, enquanto para os produtores o aumento ficou ao redor de 25%.
A justificativa de então era plausível, pois o mercado gaúcho estava em pleno inverno, rigoroso por sinal, o que naturalmente diminui a produção. Todavia, a explicação maior para a diferença de preços pagos pelos consumidores e recebidos pelos produtores se encontrava especialmente no aumento das margens das indústrias, aproveitando-se do oligopólio existente na coleta e transformação. Agora, ainda em pleno mês de março, os preços do leite longa vida, na Grande Porto Alegre e mesmo no interior, já subiram 9,76%, se constituindo no maior aumento nesse mês desde 2002.
A surpresa pode estar junto aos consumidores, porém, jamais junto à indústria. Isso porque ainda não há redução da produção de leite no Estado, embora a demanda possa estar um pouco mais aquecida. Além disso, o preço médio pago ao produtor gaúcho, no mesmo período, cresceu bem menos, ficando em 5,4%. Na prática, o aumento das margens industriais volta a ocorrer, somente que desta vez de forma antecipada.
Nessas condições, pode-se imaginar que no auge do inverno os preços do leite longa vida, aos consumidores, deverão estar muito mais altos, se aproximando de R$ 3,00/litro como ocorreu no ano passado, porém, dificilmente se repercutindo na mesma proporção aos produtores.