A decisão do governo boliviano, de nacionalizar o gás existente em seu subsolo, apesar de soberana e legítima, na medida em que foi tomada por um governo democrático, resultará em uma série de conseqüências desastrosas, a começar pelos efeitos sobre a própria economia da Bolívia e o bem-estar de sua população. O primeiro efeito está justamente na economia. O PIB boliviano depende em 75% da exploração do seu gás, feita pelas empresas internacionais lá instaladas, dentre elas a Petrobrás. O país não possui recursos e tecnologia suficientes para realizar a exploração sozinho e, mais ainda, não tem para onde escoar o seu gás sem passar pelo Brasil no imediato. Assim, o empobrecimento do país será evidente. Além disso, os investimentos externos, junto ao país mais pobre da América do Sul, deverão diminuir consideravelmente, pois os riscos aumentaram. O segundo efeito está na fraqueza do governo boliviano em tratar questões estratégicas. O governo Morales confirma ser populista e nacionalista, retrocedendo 30 anos no tempo, na expectativa de, em assim o fazendo, procurar manter sua popularidade, já em baixa. Ora, tais ações custarão caríssimo ao povo boliviano que, como sempre, será aquele que pagará a conta dos arroubos populistas de seu governo. Uma outra causa é o impacto sobre o Brasil. Em termos diplomáticos, confirma a fraqueza de nossa diplomacia externa, a qual não soube nem mesmo prever a ação de um governo vizinho, aparentemente "rezando" pelo mesmo credo ideológico. Em termos econômicos, a conta será alta a ser paga no início, nos obrigando a acelerar a exploração de gás natural assim como buscar, de imediato, outras fontes. Inclusive, já estamos em negociação a respeito com a Venezuela e a Argentina.
O efeito Bolívia (II)
O problema desta solução é que igualmente estes dois outros vizinhos estão controlados por governos populistas e despreparados, especialmente a Venezuela. Na prática, assim como fez com o petróleo, a tendência brasileira será se independizar do gás boliviano deixando o vizinho país em situação ainda mais difícil. Um outro aspecto a considerar é que a Bolívia passa a ser financiada e dominada pelo governo Chavez, da Venezuela, o qual, na sua aspiração megalomaníaca de construir uma "república bolivariana" exporta a idéia graças ao dinheiro do petróleo que possui, aproveitando-se dos altos preços deste produto no mercado mundial. A volta dos preços do petróleo a níveis normais (ao redor de US$ 30,00 a US$ 40,00/barril para os padrões de hoje) colocará também a Venezuela em uma crise sem precedentes. Enfim, os arroubos populistas que despontam na América do Sul (Venezuela, Bolívia, Argentina e, logo mais, o Peru) colocam por terra a construção de uma integração econômica regional eficiente, a começar pelo Mercosul. Situações deste tipo, onde os governos confundem "a vontade de ter com aquilo que é possível fazer", sem pensar nas conseqüências de longo prazo sobre a população, são movimentos protecionistas de mercado que vão de encontro a uma maior e melhor abertura comercial regional. Assim, a América do Sul retrocede e o Brasil junto com ela. Resta esperar que a população brasileira, neste ano eleitoral, não caia igualmente em tentação e descambe para o populismo. Resta esperar que o governo que vier a ser eleito, em outubro próximo, continue a perseverar na linha dos ajustes econômicos, construindo as concretas condições para um desenvolvimento, isolando o Brasil desde retrocesso regional que hora se instala.