O mundo atual altera as relações econômicas entre os povos. Neste contexto, três movimentos merecem destaque: a pressão para a implantação do modelo liberal, calcado no livre comércio; tal processo se acelera pelo avanço da globalização em geral e da economia em particular; e o surgimento de novas relações, estas alimentadas, por sua vez, pelos seguintes mecanismos: a informação passa a ser o verdadeiro instrumento de união entre os territórios; há maior interdependência entre os agentes econômicos; e o Estado perde espaço para os agentes econômicos privados, fato que encaminha uma nova governança mundial.
Esta nova governança, para ser eficiente, deve valorizar o Estado como um ente organizador do processo econômico, fazendo um contraponto ao Estado mínimo, caro aos liberais radicais, e ao Estado totalitário, cujas experiências práticas foram um fracasso. Isto dito, as principais características da nova governança mundial precisam ser conhecidas. Inicialmente, temos que o poder e a riqueza emanam cada vez mais de transações privadas, ultrapassando os Estados. Neste sentido, os principais agentes que possuem o poder econômico mundial são as transnacionais e os fundos de investimentos e de pensão, ou seja, o capital financeiro. Em segundo lugar, o contexto é composto de redes de produção onde a nossa inclusão nas mesmas depende de decisões privadas. Os Estados podem tentar tornar seus territórios atraentes, mas a estrutura das redes mundiais de produção não depende de suas decisões. Em terceiro lugar, ter acesso aos capitais e à tecnologia é especialmente fruto de alianças estratégicas com aqueles que controlam as redes mundiais e não conseqüência da posse e domínio sobre um território qualquer. Hoje, as redes mundiais têm muito menos razões para se identificarem com as ambições e preocupações territoriais.
Todavia, o Estado pode ajudar na competitividade de um país. Para tanto, é preciso que tenha equipe nacional unificada e competente. A idéia é que o Estado atue na linha de diminuir os custos do sistema para seus cidadãos, onde a conciliação dos elementos da soberania nacional e o liberalismo econômico seja a pedra angular do processo. Isto exige que se supere três características do sistema atual: a) que o ganho econômico possa ser alcançado independentemente da soberania; b) a idéia de que os preceitos anglo-americanos dominantes eliminam a instabilidade política; c) a convicção de que o atual regime normativo vale para os países ricos e pobres indistintamente.
No entanto, fica difícil para um Estado, tomado individualmente, modificar o equilíbrio dado. Neste quadro é que se deve colocar os blocos econômicos e a importância do Mercosul para nós sul-americanos. Isto porque o sistema atual apresenta contradições importantes. Em primeiro lugar, o jogo do sistema financeiro internacional, para dar certo, precisa de políticas orçamentárias e monetárias responsáveis. Em segundo lugar, para além de um certo ponto, a redução do poder de intervenção do Estado agrava mais os riscos coletivos do que aumenta as possibilidades de lucros individuais. Ou seja, a competência e a eficácia não eliminam a possibilidade de declínio do Estado. Em outras palavras, o aceite irrestrito da ideologia econômica atual diminui a capacidade dos governos protegerem os cidadãos comuns. Por outro lado, o questionamento da ideologia atual não significa enveredar para o corporativismo estatal, perdulário, ineficaz e seletivo. Enfim, quem contesta o Estado neste sistema, o coloca como instrumento de interesses obscuros, como objeto do imperialismo. O Estado, através de seus governos eleitos, deve saber defender os interesses nacionais dentro dos limites que sua capacidade de enfrentamento, na busca de uma inserção mundial, o permite.
Assim, a lógica econômica da globalização não impõe, por si só, o declínio dos Estados. Se, por um lado, a globalização torna mais difícil para os Estados o exercício de seu poder econômico, ela aumenta também os rendimentos potenciais de suas ações, desde que bem concebidas, competentes e organizadas.
Este é o grande desafio dos Estados na busca de uma inserção conseqüente no contexto econômico atual. Neste sentido, para alguns, o local vem tornando-se desprovido de um significado próprio e fortemente condicionado por influências externas enquanto, para outros, o local constitui-se num suporte e condição para relações globais pois é nele que a globalização se expressa concretamente e assume especificidades. Para nós, é sob este último ângulo que o Estado deve trabalhar. Evitando cair na lógica política de colocar o local como um espaço político privilegiado de resistência contra os interesses do grande capital, como contrapartida das forças sociais supostamente marginalizadas pela dinâmica da globalização. Deve-se, isto sim, transformar o local em espaço privilegiado para absorver novas tecnologias, novos investimentos, em torno de projetos modernizadores conseqüentes. O local se torna o espaço de articulação entre o moderno e o tradicional, na construção de soluções inovadoras que incluam (e não excluam!) as regiões no novo contexto econômico internacional que o mundo vive neste início do século XXI.