Dois problemas maiores, de ordem conjuntural, colocam o governo brasileiro contra a parede no afã de manter a estabilidade econômica. Os dois estão imbricados, o que complica ainda mais as ações corretivas. Junto a eles continuamos com nosso eterno problema estrutural, causa principal dos males atuais. O primeiro problema conjuntural está na continuidade da elevação dos preços. O IPCA em março, no acumulado anual, atingiu a 6,3% e já é consenso que nos próximos meses deverá romper o teto da meta inflacionária, que é de 6,5%. O segundo problema conjuntural, e que já dura algum tempo, é a contínua sobrevalorização do Real (R$ 1,57 quando a paridade de poder de compra indica um valor normal de R$ 2,20 aproximadamente). Atacar a inflação, no ritmo que ela ganhou, requer medidas duras pelo lado monetário. Particularmente o aumento de juros (Selic), algo que deverá novamente ocorrer na reunião deste mês de abril do Copom. Nesse aspecto, há uma divisão no governo: um lado defende as medidas monetárias, que bloqueariam a demanda, enquanto o outro lado defende o aumento da produção como solução para a inflação. Os dois caminhos podem levar ao mesmo resultado desejado, porém, da forma como se gerenciou o país no último ano, o caminho do aumento da produção, num momento em que não há mais ociosidade produtiva, levará muito tempo. Assim, no imediato, a solução passa mesmo pelo arrojo monetário. O problema é que os responsáveis pela disparada inflacionária foram mantidos no governo atual.
O Governo contra a parede (II)
Nesse grupo encontramos o ministro Mantega. Com o agravante de que o Banco Central ficou sem um comando firme para segurar tais crises, com a saída de Henrique Meirelles. Paralelamente, aumentar os juros provoca mais entradas de dólares no país, especialmente os especulativos. Esse fato sobrevaloriza ainda mais o Real. E as medidas adotadas para controlar esse processo são quase inócuas, pois o problema está ligado a um processo global que tem origem nos EUA. Ao mesmo tempo, com a disparada inflacionária, o Brasil não pode desvalorizar muito o Real sob pena de tornar os produtos importados mais caros. Ora, são esses produtos que, ao serem comprados no exterior mais barato, graças ao Real forte, estão auxiliando a segurar a alta de preços. Assim, o Real sobrevalorizado ajuda a conter a inflação, sem falar no estímulo aos investimentos no país. Todavia, o processo está muito forte! O saldo entre entrada e saída de dólares, no primeiro trimestre deste ano, chegou a US$ 35,5 bilhões positivos, sendo o maior desde 1982, quando a série foi iniciada. O mesmo já é 46% de todo o recurso externo que entrou no país em 2010. Para piorar a situação, a disponibilidade de crédito, mesmo com as medidas de arrocho, ainda ficou muito elevada, batendo em 21% anuais em fevereiro. O governo afirma que o sustentável, na atual realidade do país, seria entre 10% e 15% anuais. Ou seja, mais arrocho vem por aí! Enquanto isso, as medidas estruturais, puxadas pelas reformas, não acontecem, nos obrigando a segurar a economia num crescimento de 4% ao ano no máximo.