Neste momento, a soja na região Noroeste do Rio Grande do Sul atingiu o seu maior preço nominal em reais. Neste dia 16/07, momento em que escrevemos este artigo, a mesma chegou a R$ 25,20/saco, no balcão, ao produtor. Os preços para lotes ultrapassaram os R$ 27,00/saco. Este preço, imprevisível e excepcional, não deve ser desperdiçado pelos produtores. Na prática, o mesmo ultrapassa em 53,5% o preço praticado no ano passado, nesta mesma época. Lembramos que a inflação anualizada (julho/00-junho/01), medida pelo IPCA, está em 7,35%. Em dólares, este preço fica em US$ 9,73/saco pelo câmbio atual (US$ 2,59). Este preço está acima da média de julho do ano passado, que foi de US$ 9,08/saco e acima da média do ano 2000, que ficou em US$ 9,43/saco, porém, continua longe da média histórica da soja (últimos 16 anos) que é de US$ 11,00/saco.
Esta elevação de preços se deve essencialmente a evolução do câmbio no Brasil que, ao passar de R$ 2,00, na média de fevereiro, para R$ 2,59 no dia 13/07, acusa uma depreciação do real, em quatro meses e meio, de 29,5%. Igualmente, auxiliou na elevação dos preços da soja, porém, com um impacto bem menor, a alta das cotações da oleaginosa em Chicago, após os dois últimos relatórios do USDA. O primeiro, divulgado em 29/06, reduziu a área plantada com a oleaginosa nos EUA. A mesma ficou em 30,53 milhões de hectares contra 31,06 milhões anunciadas no relatório de março passado. Mesmo assim, é uma área recorde já que no ano de 2000/01 a mesma ficou em 30,17 milhões de hectares. No entanto, a correção da área levou o USDA, em seu relatório de oferta e demanda, divulgado em 11/07, a corrigir a produção final estimada e o estoque final projetado para a safra 2001/02. A produção deverá ficar agora em 79,9 milhões de toneladas e os estoques finais em 9,39 milhões contra respectivamente 81,24 e 11,98 milhões de toneladas, divulgadas em junho passado. Esta correção elevou para US$ 5,25/bushel, no dia 12/07, a cotação da soja em seu primeiro mês. Este preço é o melhor desde o início de junho de 2000.
Assim, a soma destes dois fatores elevou para níveis importantes o preço da soja na região. No entanto, como o mesmo está, por enquanto, dependendo sobretudo do câmbio, a possibilidade de um recuo junto ao mesmo deve ser levada em conta. Afinal, caso o câmbio estivesse hoje nos níveis projetados no início do ano (R$ 2,00), a saca de soja, no balcão, não estaria valendo mais do que R$ 19,00. A questão agora é saber até quanto poderá ir a depreciação cambial. Tudo indica que o limite foi quebrado em R$ 2,50, momento em que o governo brasileiro procurou intervir e quebrar a lógica altista. Até o momento não conseguiu, pois o mesmo chegou a ultrapassar os R$ 2,60 no dia 16/07. No entanto, o mercado sabe que haverá volta já que os níveis considerados normais, dentro da atual estrutura econômica brasileira, seria um câmbio entre R$ 2,10 e R$ 2,30. Isto dito, o desfecho de tal situação está dependendo de uma solução da crise econômica na Argentina, a qual passa por uma desvalorização da moeda daquele país. Quanto mais a Argentina demorar, para tomar uma medida concreta e definitiva neste ponto, mais o processo será lento, obrigando o Banco Central brasileiro a elevar as taxas de juro (Selic) a cada reunião do Copom.
Quanto ao futuro da soja, tudo indica que os preços atuais não são normais e tais cotações poderão recuar na medida em que a tempestade econômica atual passar. Por outro lado, salvo frustração na safra dos EUA, cuja colheita se dará em outubro, Chicago igualmente tende a ceder nas próximas semanas. Lembramos que o USDA projeta um patamar de preços na Bolsa, para 2001/02, entre US$ 4,00 e US$ 5,00/bushel.
Para um futuro mais distante, temos que levar em consideração as negociações da ALCA. As mesmas assistem hoje a um enfraquecimento do Mercosul, pela crise econômica que existe nesta região, porém, o processo de formação de uma zona de livre-comércio das Américas continua. A previsão de colocá-la em prática, a partir de janeiro de 2006, está mantida. Neste sentido, como disse o pesquisador Marcos Jank, em sua intervenção no Fórum da Soja do dia 13/06, precisamos incluir a agropecuária nas negociações, sobretudo no que tange aos subsídios dados pelo governo dos EUA. Ou seja, a ALCA será boa para o setor primário brasileiro, e principalmente para a soja, caso este setor entre plenamente nas negociações. Em caso contrário, a construção da Área será péssima para os nossos interesses agrícolas. Vale anotar que os EUA irão resistir em muito para reduzir seus subsídios agrícolas e políticas de apoio à produção primária. Neste sentido, está marcado para o próximo dia 03/08, junto ao Congresso norte-americano, a decisão sobre as condições do novo Farm Bill que envolverá a agropecuária dos EUA para os próximos cinco anos (é sentimento dos mais diversos analistas que o que for aprovado neste novo Farm Bill dificilmente será modificado quando da definição da ALCA). Nas primeiras avaliações, tudo indica que poucas mudanças haverá em relação ao passado. Lembramos que a Lei Agrícola, que baliza atualmente a produção primária naquele país, definiu como preço de apoio, para a soja, o valor de US$ 5,26/bushel. Um valor muito acima do que o mercado praticou nestes últimos anos, fato que elevou a área plantada com soja nos EUA, derrubando ainda mais as cotações e prejudicando diretamente os produtores de soja do resto do mundo, especialmente os brasileiros. Lembramos que a média da soja, em 2000 e 1999, ficou respectivamente em US$ 4,98 e US$ 4,76/bushel.