O Brasil voltou a aumentar sua produção de trigo neste ano, porém, ainda não foi desta vez que a safra transcorreu normalmente. Problemas climáticos ocorridos nos dois principais produtores nacionais (Paraná e Rio Grande do Sul), principalmente neste último, impediram que a safra fosse cheia. As projeções iniciais de um volume ao redor de 3,0 milhões de toneladas em nível nacional possivelmente não se confirmarão. Mesmo assim, o volume deve ter sido bem superior à frustrada safra do ano 2000, quando o volume final nacional ficou em apenas 1,64 milhão de toneladas.
Neste ano, o ponto a destacar foi o aumento da área plantada. A mesma chegou a 1,55 milhão de hectares após 1,43 milhão no ano anterior. No Rio Grande do Sul, esta área cresceu um pouco, passando a 592.000 hectares após 550.000 no ano 2000. Um aumento de 7,6%. Um maior crescimento de área foi registrado no Paraná (9,3%), com a área final chegando a 825.000 hectares. A produção gaúcha, que era esperada ao redor de 1,09 milhão de toneladas pode ter ficado abaixo de 1,0 milhão de toneladas devido a frustrações localizadas, porém, importantes. É o caso da grande região de Ijuí, onde as perdas ficaram entre 25% a 30% e a produtividade não passou de 1.600 quilos/hectare. Mesmo assim a região acabou produzindo um pouco mais do que o ano anterior graças ao aumento da área plantada. No entanto, em muitos casos a qualidade do produto caiu. Já o Paraná projetou uma safra de 1,72 milhão de toneladas após as 608.000 toneladas colhidas na péssima safra de 2000. O número final paranaense pode igualmente não ser confirmado, porém, não deverá ficar muito distante do acima apontado.
Quanto aos preços, sustentados pela dificuldade brasileira em importar trigo, devido ao forte aumento do dólar, que chegou a bater acima de R$ 2,80 em alguns momentos deste segundo semestre do ano, os mesmos chegaram em níveis mais interessantes nesta safra, confirmando projeções que realizamos. Em meados de novembro deste ano 2001, ainda com a safra a ser concluída (estaria faltando oficialmente cerca de 20% a ser colhido), o preço médio gaúcho atingia a R$ 14,79/saco. Nesta mesma época do ano passado, este preço era de R$ 12,02/saco. Ou seja, o preço do produto registra um aumento anual de 23% contra uma inflação anual (novembro/00-outubro/01) de 7,19% (IPCA-IBGE).
Esta realidade, somada a ótima performance climática junto a safra passada de soja e ao bom andamento do plantio da nova safra de verão, até o momento, está estimulando os produtores a planejarem um cultivo maior no próximo ano. Embora ainda seja cedo para se ter uma tendência definida para este plantio, não podemos perder de vista que os preços do cereal foram bem melhores neste ano por, pelo menos, duas grandes razões: a forte frustração da safra passada e a grande desvalorização do real neste ano de 2001, inesperada pela sua proporção. Estas duas condições dificilmente estarão reunidas na próxima safra. Em primeiro lugar, a atual colheita, embora sem chegar aos números inicialmente esperados, foi boa e superou de longe a colheita de 2000. Assim, temos uma oferta interna maior. Em segundo lugar, as importações da Argentina deverão ter o seu preço diminuído, na medida em que o câmbio vem cedendo (o mesmo chegou a R$ 2,52 em meados de novembro). Mesmo sendo improvável que ele recue em demasia para 2002 (as projeções iniciais mais otimistas dão conta de que o câmbio possa ficar entre R$ 2,45 a R$ 2,55 enquanto os mais pessimistas projetam um câmbio ao redor de R$ 2,85 a R$ 2,90 para o final de 2002), tudo indica que na média o mesmo possa ficar abaixo da média de 2001, senão nos mesmos níveis. Levando-se em consideração a inflação do período, as importações tendem a ser mais baratas, puxando os preços nacionais para baixo.
Resta saber as condições da safra da Argentina, nosso maior fornecedor externo de trigo. Neste momento, o trigo que está sendo colhido ao norte do vizinho país dá conta de um nível de proteína de 11,9% e um PH médio de 79,6. Os preços na Argentina indicam um valor de US$ 140,00/tonelada para a safra velha ao sul do país. Para a safra nova, ao norte os mesmos giram ao redor de US$ 110,00/tonelada para dezembro e nos portos do sul a US$ 112,00/tonelada. No que tange a safra velha, os argentinos já teriam comercializado um total de 14,6 milhões de toneladas. A safra nova já atinge a 3,65 milhões de toneladas vendidas. Os compromissos de vendas externas por parte dos argentinos, até o dia 09/11, chegavam a 4,17 milhões de toneladas sendo 1,0 milhão para o Brasil. A produção argentina de trigo está estimada em 17,7 milhões de toneladas para esta nova safra. Deste total, 4,25 milhões será consumido pela indústria local, 615.000 em rações e sementes e 13 milhões de toneladas exportadas. Os estoques finais do produto ficariam em 614.000 toneladas após 799.000 toneladas neste último ano.
Ou seja, apesar das dificuldades climáticas que os argentinos vêm passando, a safra de trigo deve permitir um nível de qualidade aceitável, havendo largamente volume para abastecer o Brasil. Na hipótese de um preço de US$ 110,00/tonelada e taxas de câmbio entre R$ 2,50 e R$ 2,55, o preço internalizado do produto, no sul do Brasil, pouco ultrapassaria os R$ 300,00/tonelada. Sem falar da eterna possibilidade de se trazer trigo subsidiado de outra parte do planeta. Nestas condições, o produto interno poderá não receber a valorização que merece e, para os produtores, será preciso bem mais do que 1.800 quilos/hectare para a produção do cereal, por si só, ser compensadora na safra de 2002.
O MERCADO DO TRIGO E O SEU FUTURO
Argemiro Luís Brum
O Brasil voltou a aumentar sua produção de trigo neste ano, porém, ainda não foi desta vez que a safra transcorreu normalmente. Problemas climáticos ocorridos nos dois principais produtores nacionais (Paraná e Rio Grande do Sul), principalmente neste último, impediram que a safra fosse cheia. As projeções iniciais de um volume ao redor de 3,0 milhões de toneladas em nível nacional possivelmente não se confirmarão. Mesmo assim, o volume deve ter sido bem superior à frustrada safra do ano 2000, quando o volume final nacional ficou em apenas 1,64 milhão de toneladas.
Neste ano, o ponto a destacar foi o aumento da área plantada. A mesma chegou a 1,55 milhão de hectares após 1,43 milhão no ano anterior. No Rio Grande do Sul, esta área cresceu um pouco, passando a 592.000 hectares após 550.000 no ano 2000. Um aumento de 7,6%. Um maior crescimento de área foi registrado no Paraná (9,3%), com a área final chegando a 825.000 hectares. A produção gaúcha, que era esperada ao redor de 1,09 milhão de toneladas pode ter ficado abaixo de 1,0 milhão de toneladas devido a frustrações localizadas, porém, importantes. É o caso da grande região de Ijuí, onde as perdas ficaram entre 25% a 30% e a produtividade não passou de 1.600 quilos/hectare. Mesmo assim a região acabou produzindo um pouco mais do que o ano anterior graças ao aumento da área plantada. No entanto, em muitos casos a qualidade do produto caiu. Já o Paraná projetou uma safra de 1,72 milhão de toneladas após as 608.000 toneladas colhidas na péssima safra de 2000. O número final paranaense pode igualmente não ser confirmado, porém, não deverá ficar muito distante do acima apontado.
Quanto aos preços, sustentados pela dificuldade brasileira em importar trigo, devido ao forte aumento do dólar, que chegou a bater acima de R$ 2,80 em alguns momentos deste segundo semestre do ano, os mesmos chegaram em níveis mais interessantes nesta safra, confirmando projeções que realizamos. Em meados de novembro deste ano 2001, ainda com a safra a ser concluída (estaria faltando oficialmente cerca de 20% a ser colhido), o preço médio gaúcho atingia a R$ 14,79/saco. Nesta mesma época do ano passado, este preço era de R$ 12,02/saco. Ou seja, o preço do produto registra um aumento anual de 23% contra uma inflação anual (novembro/00-outubro/01) de 7,19% (IPCA-IBGE).
Esta realidade, somada a ótima performance climática junto a safra passada de soja e ao bom andamento do plantio da nova safra de verão, até o momento, está estimulando os produtores a planejarem um cultivo maior no próximo ano. Embora ainda seja cedo para se ter uma tendência definida para este plantio, não podemos perder de vista que os preços do cereal foram bem melhores neste ano por, pelo menos, duas grandes razões: a forte frustração da safra passada e a grande desvalorização do real neste ano de 2001, inesperada pela sua proporção. Estas duas condições dificilmente estarão reunidas na próxima safra. Em primeiro lugar, a atual colheita, embora sem chegar aos números inicialmente esperados, foi boa e superou de longe a colheita de 2000. Assim, temos uma oferta interna maior. Em segundo lugar, as importações da Argentina deverão ter o seu preço diminuído, na medida em que o câmbio vem cedendo (o mesmo chegou a R$ 2,52 em meados de novembro). Mesmo sendo improvável que ele recue em demasia para 2002 (as projeções iniciais mais otimistas dão conta de que o câmbio possa ficar entre R$ 2,45 a R$ 2,55 enquanto os mais pessimistas projetam um câmbio ao redor de R$ 2,85 a R$ 2,90 para o final de 2002), tudo indica que na média o mesmo possa ficar abaixo da média de 2001, senão nos mesmos níveis. Levando-se em consideração a inflação do período, as importações tendem a ser mais baratas, puxando os preços nacionais para baixo.
Resta saber as condições da safra da Argentina, nosso maior fornecedor externo de trigo. Neste momento, o trigo que está sendo colhido ao norte do vizinho país dá conta de um nível de proteína de 11,9% e um PH médio de 79,6. Os preços na Argentina indicam um valor de US$ 140,00/tonelada para a safra velha ao sul do país. Para a safra nova, ao norte os mesmos giram ao redor de US$ 110,00/tonelada para dezembro e nos portos do sul a US$ 112,00/tonelada. No que tange a safra velha, os argentinos já teriam comercializado um total de 14,6 milhões de toneladas. A safra nova já atinge a 3,65 milhões de toneladas vendidas. Os compromissos de vendas externas por parte dos argentinos, até o dia 09/11, chegavam a 4,17 milhões de toneladas sendo 1,0 milhão para o Brasil. A produção argentina de trigo está estimada em 17,7 milhões de toneladas para esta nova safra. Deste total, 4,25 milhões será consumido pela indústria local, 615.000 em rações e sementes e 13 milhões de toneladas exportadas. Os estoques finais do produto ficariam em 614.000 toneladas após 799.000 toneladas neste último ano.
Ou seja, apesar das dificuldades climáticas que os argentinos vêm passando, a safra de trigo deve permitir um nível de qualidade aceitável, havendo largamente volume para abastecer o Brasil. Na hipótese de um preço de US$ 110,00/tonelada e taxas de câmbio entre R$ 2,50 e R$ 2,55, o preço internalizado do produto, no sul do Brasil, pouco ultrapassaria os R$ 300,00/tonelada. Sem falar da eterna possibilidade de se trazer trigo subsidiado de outra parte do planeta. Nestas condições, o produto interno poderá não receber a valorização que merece e, para os produtores, será preciso bem mais do que 1.800 quilos/hectare para a produção do cereal, por si só, ser compensadora na safra de 2002.