Apesar da queda nos preços o ano de 2008 contabilizará um novo recorde de faturamento no segmento Bio – os chamados Alimentos Orgânicos Certificados na Alemanha. Esta manchete me chamou a atenção no jornal Suddeutsche Zeitung, de Munique, 18 de janeiro de 2008.
Pesquisas mostram que 90% dos alemães consomem ou já consumiram pelo menos uma vez produtos orgânicos. O consumo continua aquecido, depois de um crescimento de 15% em 2007 sobre 2006. “Em 2008, sem dúvida, ultrapassaremos a barreira de 5 bilhões de euros de faturamento” são as palavras de Felix Prinz, diretor do departamento federal de economia de alimentos durante a abertura da “Semana Verde” em Berlin nessa semana, a maior feira mundial do setor.
Em 2007 ocorreram problemas no fornecimento de batata Bio levando ao aumento de preços. Com isso diversos clientes fugiram do Bio e consumiram a batata convencional. Com cereais foi um pouco diferente. A escassez de oferta destes produtos na União Européia foi coberta com importações de outras regiões sem afetar significativamente os preços.
Não se sabe ao certo quanto do que é consumido na Alemanha é importado porque também lá os produtos não são estatisticamente separados dos convencionais na alfândega, portanto uma batata convencional importada da Rússia não se distingue de uma batata orgânica dentro do emaranhado de levantamentos estatísticos. O que se sabe é que muito pouco do que se consome de alimento Bio na Alemanha é produzido localmente e em 2007 a área plantada de produtos Bio só cresceu 2%.
O que levam os alemães a consumirem tanto produto Bio? Já se sabe há muito tempo que os principais motivos são a busca de saúde, e cuidados com o corpo. Na segunda linha estão as preocupações sociais e com o ambiente. O Economista Agrícola Achim Spiller da Universidade de Goettingen faz uma análise destas tendências e declara que são “consumidores preocupados com a própria qualidade e estilo de vida”.
Para desilusão de muitos, em setembro de 2007, a Fundação “Stiftung Warentest” responsável por testar a qualidade dos produtos fabricados e consumidos na Alemanha, algo semelhante ao Inmetro, declarou que na soma final, não existe diferença na qualidade entre produtos alimentos Bio e convencionais. Para os entendidos, esta declaração não era novidade. Já se sabia que para legumes, frutas e verduras outros parâmetros são mais importantes. Se uma maçã tem mais vitaminas ou minerais do que outra, não importa saber se uma é Bio e a outra é convencional. A variedade da maçã, em que região foram cultivadas, o microclima e qual o tempo de transporte e armazenamento antes do consumo influenciam muito mais do que apenas o sistema de cultivo.
O estudo mostra, no entanto, que como as plantas Bio têm que se proteger de pragas e doenças sem a ajuda de “remédios” ou “venenos” elas tem que produzir substâncias chamadas de antioxidantes como polifenois e flavonóides que atuam em sua defesa. Portanto, as plantas Bio têm maiores concentrações destas substâncias. Seria por isso que produtos Bio seriam melhores para nossa saúde? Não existem provas ou estudos científicos de boa qualidade que demonstrem que isto seria um diferencial.
O “Inmetro” alemão também mostrou que alguns produtos como o óleo de oliva e o presunto orgânico apresentavam, em média, maiores concentrações de bactérias que os mesmos produtos convencionais. Também quanto ao sabor muitos produtos Bio “caíram”. Aqui vale o que se diz que os produtos Bio não possuem resíduos de pesticidas. Ficou demonstrado que os resíduos em produtos convencionais eram tão insignificantes que o consumidor “pode ficar seguro de sua inofensibilidade”.
Este é um segmento de consumo crescente também no Brasil. Deve acompanhar o crescimento da renda per capta.
Que sirva como indicativo a informação de que é muito caro produzir alimentos Bio e convencionais na Europa. Por onde se anda, nas ruas e lojas da Alemanha se escuta um emaranhado de idiomas, vindos principalmente do leste europeu e países asiáticos. São novos trabalhadores e consumidores se incorporando ao mercado em busca de emprego, qualidade de vida e possibilidades de consumo. São novos potenciais consumidores de Bio sem chance de serem plenamente abastecidos pelos produtores locais abrindo caminho para países como o nosso.