O mundo econômico, a partir da crise iniciada em meados de 2007, se transforma rapidamente.
Algumas constatações já podem ser avançadas:
- a crise chega ao seu terceiro estágio, sem perspectivas de solução no médio prazo (após o abuso do setor financeiro especulativo, aproveitando-se de uma desregulação exagerada do mercado, enfrentou-se o estouro da bolha financeira, com a necessidade de socorro do capital público para manter a economia minimamente funcionando, já que o capital privado praticamente se retirou do mercado, terceiro ato do processo, a ação positiva de sustentar a economia se chocou com a realidade dos Estados, fortemente endividados e que não souberam fazer seus ajustes estruturais de forma eficiente, fato que nos coloca agora diante de uma crise fiscal mundial);
- a globalização da economia, que alimentou o processo de contágio da crise, é vista agora como a solução para os problemas, pois o mundo desenvolvido depende da recuperação dos países emergentes para garantir uma saída de crise mais duradoura;
- como se imaginava, exceção feita aos mais afoitos, não ocorreu um retorno absoluto do Estado ao controle da economia e sim a confirmação da necessidade de um Estado organizador, que use os mecanismos de mercado para regular com eficiência o sistema econômico-financeiro e não aumentar sua intervenção (afinal, a dívida pública mundial soma hoje US$ 35 trilhões, fragilizando sua capacidade de ação);
- o mundo se viu obrigado a repartir melhor o poder, com o G20 assumindo maior importância sobre o G7, porém, se percebe que o destino da economia mundial está efetivamente nas mãos do que o G2 (EUA e China) decide;
- enfim, é reforçado o papel das moedas no cenário internacional, com as taxas de câmbio sendo usadas como instrumento de competitividade.
O mundo e os desafios brasileiros (II)
Nesse último caso, o Yuan chinês ganha importância enquanto o Euro perde espaço, num jogo em que o dólar é deixado à deriva para sustentar a economia dos EUA, prejudicando a maioria das demais moedas mundiais via uma sobrevalorização nociva aos seus países, caso do Real brasileiro.
Nesse contexto, como se comportará a economia brasileira nos próximos anos? Pois o Brasil, às voltas com mais um importante período eleitoral, deve caminhar sobre o mesmo eixo que norteia sua sustentabilidade econômica desde 1994, quando o Plano Real foi lançado. Qualquer um dos três candidatos mais em evidência à Presidência da República não deverá modificar a linha mestra da economia.
Todavia, o país será obrigado a fazer suas reformas estruturais se quiser efetivamente construir um caminho melhor ao desenvolvimento. Enquanto se espera por isso teremos que aprender a caminhar com um crescimento ao redor de 5% ao ano se não quisermos retornar ao período de inflação desenfreada e concentradora de renda. Isso não gerará os empregos necessários e, assim, permaneceremos com um contingente relativamente importante de desempregados.
Paralelamente, seremos obrigados a investir muito mais em educação e formação da sociedade e não apenas em infraestrutura. Os instrumentos monetários ortodoxos continuarão a ser usados, via Banco Central, para garantir um processo que mantenha o país inserido no cenário mundial e, ao mesmo tempo, aumente sua capacidade de colocar mais brasileiros no mercado de consumo. Entretanto, isso não poderá mais ser feito via a geração de bolhas de endividamento, a partir de uma oferta de crédito sem controle. Está mais do que na hora de passarmos ao consumo com responsabilidade.
Enfim, se conseguirmos manter o rumo e fazer bem feito o “dever de casa” a próxima geração viverá melhor.