É provável que a economia mundial consiga ensaiar uma recuperação mais consistente, embora nada garanta ainda que o mundo estará livre da crise. Nesse sentido, o Brasil talvez consiga um crescimento de 3% ao ano (caso haja retorno de apoio público ao consumo, tal crescimento pode mesmo chegar a 5%).
No entanto, a taxa básica de juro (Selic) deverá crescer, para segurar possíveis pressões inflacionárias, devendo ficar entre 9,75% e 10,5% no final de 2010, embora o governo espere reduzi-la.
Paralelamente, a inflação nacional deverá ser mantida ao redor da meta de 4,5% ao ano (IPCA) e o IGPM voltará a subir, após ter alcançado, pela primeira vez em sua história, um índice negativo em 2009. O câmbio, em nada mudando em relação a política dos EUA, e o governo brasileiro não aumentando o IOF sobre os capitais especulativos que entram no país, deverá se manter entre R$ 1,70 e R$ 1,90.
Enfim, a balança comercial deverá registrar novas perdas, reduzindo ainda mais seu saldo final, mesmo com o governo projetando uma exportação total ao redor de US$ 168 bilhões.
O maior risco estará nas eleições presidenciais na medida em que o governo Lula, no afã de eleger sua candidata a qualquer custo, venha a cair na tentação de ações populistas que elevem ainda mais os gastos públicos, exigindo maior venda de títulos que irão causar um aumento no endividamento interno nacional, hoje já ultrapassando a R$ 1,3 trilhão ou US$ 770 bilhões.
Balança comercial alcança níveis de 2008
Diante da continuidade da crise econômica mundial, particularmente junto aos países desenvolvidos, e da manutenção de um câmbio desfavorável às exportações, o saldo da balança comercial nacional chega ao final da terceira semana de novembro apenas um pouco melhor do que o registrado no mesmo período de 2008.
Ao final da terceira semana de novembro o país acumulava um saldo de US$ 22,96 bilhões, resultado de exportações em US$ 134,67 bilhões e importações de US$ 111,71 bilhões, contra um saldo de US$ 21,91 bilhões um ano antes (um aumento de 4,8% no superávit acumulado de um ano para outro).
Todavia, em relação às três primeiras semanas de outubro passado o saldo registra um recuo, na média diária, de 59%, enquanto as exportações perdem 6,4% e as importações 0,9%. Em relação ao mesmo período de novembro de 2008, a realidade é ainda pior.
O saldo recua 68,3%, enquanto as exportações perdem 14,9% e as importações 8,2%. Na comparação do acumulado anual, temos que as vendas externas recuam 24,4% em 2009, enquanto as importações perdem 28,6%.
O sinal de Dubai
A crise do setor imobiliário dos EUA foi o estopim para o estouro da crise econômico-financeira mundial que vivemos nos últimos dois anos e que ainda não encontra seu término. No comentário passado alertávamos para o fato de que a China caminha para a mesma situação, assim como o Brasil vem gerando uma realidade não muito diferente.
Agora, no final desta semana, um dos paraísos econômicos mundiais alvoroçou a economia internacional, causando uma queda importante nas bolsas globais. Trata-se de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio, que indicou a paralisação, por seis meses, no pagamento de uma dívida de US$ 59 bilhões. Essa situação confirma que a crise mundial está longe de terminar.
Por outro lado, mais uma vez o estopim do problema é o colapso do setor imobiliário que, neste país, após sete anos de fortes investimentos, se encontra agora em situação delicada.
Esse novo sinal nos mostra que será preciso muita cautela e racionalidade para que possamos superar a crise, mesmo aqui no Brasil onde se passa a ideia de que a mesma já está no retrovisor.
A economia deve crescer (?)
A crise mundial e a recessão que se seguiu a ela, ainda atingindo a muitos países, trouxeram à tona na Europa um debate que estava circunscrito a poucos grupos. Trata-se da teoria do “decrescimento econômico”, entendida como o questionamento da acumulação material como fonte de melhoria de vida e do crescimento econômico a qualquer preço.
Ou seja, existe uma crítica crescente contra o atual sistema econômico baseado apenas no crescimento de bens e no consumo. Uma pesquisa feita na França, em outubro passado, mostrou que 27% dos franceses estariam dispostos e prontos a mudar radicalmente seu modo de vida e a restringir seu consumo de forma significativa.
Na verdade, trata-se de construir outro tipo de crescimento econômico. O mesmo seria baseado em um consumo que harmonizaria aquilo que as pessoas consideram benéfico para a sociedade e aquilo que elas têm necessidade. Em tempos de encontro mundial em Copenhague, visando organizar uma agenda mais objetiva em favor do meio ambiente, tal debate ganha ainda mais importância.
Se um dia isso vier a ser concretizado, estaremos diante de uma ação que irá modificar completamente a estrutura produtiva mundial, nascida ainda por ocasião da Revolução Industrial, em meados do século XVIII.