“No principio eram só hortas”. Foi com o cultivo de espécies olerícolas, que se iniciaram as primeiras produções orgânicas dentro do movimento da Agricultura Orgânica Brasileira. As razões são de ordem prática, pois as plantas de folha e legumes, sempre exigiram um solo bem fértil, principalmente no que se refere ao teor de matéria orgânica, assim como são de ciclo mais rápido, ocupam em geral áreas menores, normalmente com mão de obra familiar e com alto valor agregado. Coube a este segmento da agricultura o pioneirismo na oferta de produtos orgânicos, a principio, através de cestas domiciliar e as feiras especializadas, onde a relação produtor e consumidor é muito estreita, envolvendo muitas vezes laços de amizade e respeito mútuo, sendo que hoje, já ocupa espaço em grandes gôndolas especiais nas grandes redes de supermercados e também em todos os outros canais de distribuição dos produtos orgânicos.
Atualmente verificamos a organização dos sistemas de produção, distribuição e comercialização, desenvolvida por varias empresas especializadas em comercialização (processamento e distribuição) somente de produtos orgânicos. È um processo onde as produções são planejadas para épocas e volumes estabelecidos, assim como os preços são acordados previamente.
Isto mostra o quanto um sistema de produção (orgânico), altera uma maneira de comportamento dos produtores, fazendo com que procurem se organizar de alguma maneira, deixando de esperar que alguém venha buscar a produção e pague o preço que lhe convém (atravessador), o que é muito comum no sistema de produção convencional.
Mesmo com o pioneirismo, e sendo muito importante para o segmento orgânico, o setor de olericultura enfrenta vários problemas, tanto de ordem técnica, (neste caso especifico para algumas culturas), quanto de ordem comercial (atingindo toda a cadeia). Um dos maiores problemas enfrentados pelos produtores de olerícolas orgânicas é a pouca ou nenhuma oferta de sementes orgânicas para atender ao processo de certificação em toda a cadeia. Felizmente, algumas empresas já estão colocando no mercado sementes de algumas espécies, principalmente folhosas. Vemos também um aumento, ainda que tímido, de mudas orgânicas certificadas, principalmente de morangos .
Outros problemas, esses já de ordem técnica, são com relação as pesquisas para produção em sistema orgânico, como novas variedades com características mais adaptadas a esse tipo de produção, seja com relação a resistência a doenças e pragas, como uma boa resposta ao sistema de condução orgânico, principalmente com relação a adubação e nutrição .
Para resolver esses problema, temos visto o esforço de alguns pesquisadores, como o exemplo da EMCAPER - Espirito Santo, que tem um programa para a pesquisa em olericultura Orgânica, e que resultou na publicação de um livro “Agricultura Orgânica” – Tecnologias para a Produção de Alimentos Saudáveis - Volume I - 1998 – publicação esta com testes e conclusões voltadas para a olericultura , lançado no I Encontro Nacional sobre Produção Orgânica de Hortaliças em Vitória em 1998. No ano passado (2.000) tivemos a realização do II Encontro sobre a Produção Orgânica de Hortaliças, em São Carlos - S.P. Os dois eventos foram promovidos pela SOB (Sociedade Brasileira de Olericultura do Brasil ) e realizados por entidades locais em cada estado (EMCAPA no Espirito Santo e UFSCAR em São Paulo).
Temos ainda diversas outras instituições oficiais com programas de pesquisas em agroecologia, dando ênfase à Agricultura Orgânica, como o Instituto Agronômico de Campinas, que lançou seu programa no ano de 2.000, onde já estão disponíveis algumas informações como a variedade de batata Itararé, com adaptação ao cultivo orgânico, assim como outros trabalhos em adubação verde e avaliação de dois cultivares de alface, em diferentes tipos de adubação orgânica. O que temos é que as instituições de pesquisa que foram direcionadas para o modelo da revolução verde, com o uso de grandes doses de adubos altamente solúveis, principalmente NPK, com elevada dependência dos agrotóxicos, apresentam, em seu banco de germoplasma, linhagens que apresentam boas características para o sistema de produção orgânico, faltando apenas redirecionar estas seleções em experimentos para tal sistema de cultivo.
O Instituto Biológico também tem contribuído para a agricultura orgânica, através da realização de dois ciclo de palestra sobre o tema, onde diversos pesquisadores apresentaram seus trabalhos na área., além de desenvolver pesquisas no controle biológico de pragas e doenças.
A nível Federal temos a EMBRAPA, com unidades de pesquisa voltadas para a agroecologia, como o Centro Nacional de Pesquisas em Agrobiologia (CNPAB) - Seropédica RJ. e o Centro Nacional de Pesquisa em Meio Ambiente (CNPMA) - Jaguariúna SP, ambos, juntamente com outros centros, tem desenvolvido pesquisas com métodos alternativos ou ecológicos para o controle de moléstias e pragas (CNPMA), como por exemplo o uso de leite cru para o controle de oídio em abóboras, e o uso isolados de fungos no controle de insetos.
A divulgação e implantação de projetos com práticas agrícolas dentro do processo orgânico, no Estado de São Paulo, tem as ONGs como pioneiras, representadas pelas associações de produtores e entidades afins, como a Associação de Agricultura Orgânica (AAO), Associação de Agricultura Natural de Campinas (ANC), Associação de Produtores de Agricultura Natural (APAN), Fundação Mokiti Okada (MOA), e Associação Biodinâmica (ABD), as quais tem conseguido com muito esforço o atual sucesso do movimento, através da atuação seus técnicos e/ou por profissionais a elas ligados. Temos ainda diversos profissionais autônomos que realizam consultorias, assim como a extensão rural oficial, através da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – CATI, onde alguns técnicos vem conduzindo e participando de projetos voltados para a Olericultura Orgânica, em diversos municípios onde está atividade é importante, principalmente no cinturão verde ao redor da cidade de São Paulo.
A grande contribuição para a agricultura paulista e para a agricultura orgânica, com especial atenção a Olericultura, será efetivada pelo Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, conduzido pelo governo estadual através da CATI, onde as ações deverão estar em grande parte do território do Estado de São Paulo, em projetos de preservação e uso do solo e dos recursos hídricos (água ), fatores fundamentais para a Olericultura Orgânica, principalmente no que trata da qualidade da água e controle desta qualidade .
Entendemos assim, que a elaboração, execução e implantação dos projetos nas microbacias pelo Estado é uma ótima oportunidade para se promover uma discussão conjunta entre todos os interessados no precioso líquido, tanto o poder público, como os produtores e suas organizações, principalmente as que desenvolvem ações no âmbito da agricultura orgânica e necessitam de água de qualidade para a produção de olerícolas .
Assim, o que temos hoje é uma caminhada de instituições, sejam elas públicas, mistas, privadas ou ONGs, nos diversos segmentos - pesquisa, extensão / prestação de serviços, produção de insumos, em direção a Agricultura Orgânica, com ênfase na olericultura, considerada o carro chefe do movimento, pois está voltado principalmente para o mercado interno. É realizada principalmente pela agricultura familiar, gera muitos empregos pelo uso intensivo de mão de obra e é o setor que facilita a mudança de hábito do consumidor para a aquisição de alimentos mais saudáveis, pois é de consumo diário na mesa do brasileiro.
Como prova da força da olericultura, ao observarmos as estatísticas da AAO , vemos que é uma das atividades certificadas de maior expressão. Ela representa mais de 40% das empresas certificadas, algo em torno de 150 produtores, com aproximadamente 250,00 ha. Ao fazermos uma análise das áreas certificadas, até o ano 2.000, temos 5.193,62 ha , sendo 4.294,14 ha área de café, restando 702,56 ha para as outras culturas, neste contexto a olericultura com seus 250,00 ha, representa 35% desta área. Isto sem levar em conta as rotações ao longo do ano, com plantio na mesma área , o que pode atingir em torno de 900,00 ha/ano.
Temos na agricultura orgânica a oportunidade de oferecer alimento sadio a todos, pois alimentação de qualidade é o anseio de todo ser humano. Aliado a conservação do nosso ambiente, e contribuindo para evolução de seres humanos pela trilha da sustentabilidade.