Em meados de dezembro passado o mundo assistiu a realização da Conferência sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Copenhague (Dinamarca). Esperava-se, como resultado, a formatação de um grande plano mundial contra o aquecimento climático.
No entanto, os 119 países presentes à Conferência não foram capazes de chegar a tal acordo. Copenhague se resumiu a um primeiro passo em direção a uma nova ordem climática mundial, o que para muitos foi sinônimo de fracasso.
Alguns analistas consideram que Copenhague pode ser um novo Doha (em referência a interminável Rodada Multilateral de Negociações Comerciais lançadas pela OMC em novembro de 2001, em Doha, capital do Catar). O que poucos sabem é o que realmente ocorreu nos bastidores deste encontro sob o frio dinamarquês.
Esta Conferência, juntamente com o encaminhamento de medidas para a crise econômica mundial mostrou que o mundo depende das decisões e acordos assumidos pela dupla formada pela China e os EUA. Ou seja, o mundo dificilmente avança atualmente sem um acordo entre estes dois gigantes econômicos.
Nesse sentido, o G2 foi muito eficaz para limitar as conseqüências da crise financeira junto ao G20. Os dois países, com economias imbricadas, tiveram interesse em avançar conjuntamente para resolver o problema. Já na Conferência de Copenhague os interesses foram menores e divergentes.
A China, com certa razão, se recusa a travar seu processo de recuperação econômica e acusa os EUA de realizar esforços insuficientes na redução das emissões de gás carbônico (efeito estufa). Os EUA, por sua vez, preocupados com a concorrência desleal da China, querem que Pequim respeite seus compromissos de controle de poluentes.
Junto a eles, surge a Índia que igualmente não deseja travar seu crescimento econômico com medidas de controle ecológico. Ora, os três países representam a metade da população mundial de hoje. Os EUA esperavam convencer a China, em uma reunião bilateral, a construir uma proposta mundial palatável aos dois.
Como a China não tem interesse (pelo menos por enquanto) em liderar a economia mundial, na hora da reunião, para surpresa norte-americana, o Brasil, a Índia e a África do Sul haviam sido convidados (pelos chineses). E estes cinco países é que acabaram redigindo o “acordo” de Copenhague.
A grande lição disso tudo é que:
1) a relação entre os EUA e a China definirá o século XXI;
2) o Brasil não tem toda a importância que nosso governo tentou nos vender nos últimos meses (“onde há um grupo de negociação estaremos presentes, pois somos imprescindíveis”); 3) a China não tem nenhum interesse em co-gerir o mundo, julgando inapropriado o conceito de G2 (até quando?).
Na prática, os dois gigantes econômicos se acusam mutuamente, um de adotar medidas protecionistas (EUA) e outro de continuar desvalorizando sua moeda (China). Um G2 só irá funcionar quando os EUA diminuírem sua dívida (de mais de US$ 800 bilhões) para com a China, e esta aceitar uma valorização de sua moeda e/ou a conversibilidade da mesma.
Enfim, nesse contexto a União Europeia ficou marginalizada (além de dividida sobre o assunto) e os países da OPEP vibraram com o fracasso das negociações. Nesse último caso, controlar a emissão de gás efeito estufa significa consumir menos petróleo, como fonte de energia, fato que não interessa aos países produtores.
Por isso, o esforço dos mesmos em estabilizar os preços mundiais do “ouro negro” entre US$ 70,00 e US$ 80,00/barril, a fim de que o mesmo seja aceitável para todos.