O governo brasileiro usa a taxa de juros com duas estratégias principais. A primeira, frear o aquecimento da economia quando este indicar uma elevação anormal das taxas inflacionárias. Segundo, atrair os capitais internacionais, visando formar reservas adequadas e alavancar a economia nacional. Neste início de 2006, o governo mudou um pouco, concentrando o seu foco basicamente no controle da inflação. Isto porque a entrada de capital internacional ganhou um reforço ao não sofrer mais a incidência de taxas e impostos. Desta maneira, mesmo que o juro baixe, a tendência é do capital mundial continuar entrando no país. Particularmente se a estabilidade econômica se mantiver. Assim, o ponto central para o comportamento interno dos juros, medido pela Selic, passa a ser a pressão inflacionária. Neste momento, a economia indica uma inflação, para o final do ano, ao redor da meta pré-estabelecida, ou seja, 4,5%. Desta forma, o COPOM, que se reuniu nesta semana, pela segunda vez no ano, pode reduzir os juros e acenar com um maior estímulo à economia. A pergunta é: sem populismos eleitoreiros, até quanto a taxa Selic poderá chegar? A resposta está no comportamento da inflação. Em a mesma ficando nos níveis desejados, o ano poderá terminar com uma taxa de juros entre 14% e 15% nominais. No entanto, a qualquer aquecimento demasiado da economia, que leve a um descontrole da inflação, o COPOM parará de reduzir as taxas de juro e, mesmo, poderá voltar a elevá-las. As próximas seis reuniões deste Conselho, previstas para o restante deste ano, darão o tom deste movimento, tendo como elemento alimentador do processo o comportamento dos preços do comércio e indústria nacionais.
As Conseqüências para a Economia
Dentre as principais conseqüências que este movimento oficial, em torno dos juros, traz ao país, duas merecem destaque. A primeira indica que, em seguindo esta linha, a entrada de dólares no país, enquanto durar o "boom" de oferta mundial e a estabilidade nacional perdurar, não se reduzirá. Isto significa que será difícil ocorrer uma desvalorização do real, tão necessária e desejada, particularmente pelo setor exportador. Neste momento pode-se prever que, talvez, não se consiga nem chegar ao patamar mínimo de R$ 2,40 no final do ano, projetado há três meses. Aliás, este é um movimento que auxilia na manutenção de uma inflação baixa, pois permite a importação de produtos a preços reduzidos em reais. A segunda, mais positiva, permite que o país tenha mais espaço para um crescimento econômico melhor em 2006. Ou seja, a redução dos juros oficiais, desde que repercutidos pelo sistema financeiro aos consumidores, tende a aquecer a economia, a gerar mais investimentos produtivos e mais empregos, podendo construir um PIB mais interessante no final de 2006. Neste momento, um percentual de 3,5% é factível, embora longe de ser o ideal e necessário ao país (lembramos que o crescimento de 2005 ficou em apenas 2,3%). Em havendo um comportamento de preços dentro das projeções da meta inflacionária, tal realidade confirma que 2006 poderá ser melhor do que 2005, embora continue a exigir muito controle dos gastos por parte de todos os agentes econômicos. Para isto funcionar, a questão central é efetivamente o repasse da redução dos juros oficiais, por parte do sistema financeiro, à população. Como vimos pelos lucros dos bancos em 2005, isto está longe de ocorrer, gerando mais uma anomalia nefasta ao país.