A prática brasileira já demonstrou há anos que a sincronia entre a taxa de juro básica oficial (Selic) e as taxas de juros comerciais é pequena. Ou seja, mesmo com uma redução substancial na Selic, os juros comerciais pouco recuam. Assim, de pouco serve a notícia de que os juros para operações de crédito recuaram no país pelo sexto mês consecutivo.
Isso porque, enquanto a Selic recuou 36,4% nos primeiros sete meses de 2009, ao passar de 13,75% em janeiro para 8,75% atualmente, os juros para pessoa física recuaram, no mesmo período, apenas 19,6% para o cheque especial; 5,2% para os juros de comércio; e 7,7% para o empréstimo pessoal junto aos bancos.
Ao mesmo tempo, o juro do cartão de crédito subiu, no período, de 10,56% ao mês, em janeiro, para 10,68% em meados de agosto. Tecnicamente, juro é a remuneração que o tomador de um empréstimo deve pagar ao proprietário do capital emprestado. O problema é que os bancos trabalham em boa parte com o dinheiro dos próprios clientes, reemprestando esse dinheiro a outros clientes e assim por diante.
Ou seja, os clientes que aplicam na caderneta de poupança recebem ao redor de 6% ao ano de juro. Já o mesmo cliente, se tiver necessidade de usar o cheque especial, terá que pagar pelo dinheiro emprestado um juro anual de 135%.
Na prática, a diferença entre o juro pago e o juro recebido, pelo mesmo dinheiro que circula internamente no banco, conhecida como spred, é astronômica no Brasil. Esse fato explica os lucros excepcionais dos bancos, mesmo em pleno período de crise econômica.
Os bancos se apropriam de grande parte dos juros resultantes de um capital emprestado que, em boa medida, não é seu. Isso é mais-valia! Nesse caso, apropriação do valor do rendimento financeiro que não é repassado ao dono do dinheiro.
Os juros e o desenvolvimento (II)
Por mais que os bancos devam ganhar uma margem pelo seu trabalho e que haja custos, além de riscos de inadimplência nas operações, a diferença é muito elevada e injustificável.
Mesmo porque, para reduzir o risco de inadimplência, uma ação racional seria parar de emprestar para maus pagadores. Paralelamente, mesmo que os juros sejam reduzidos, o lucro (ou a mais-valia) bancário pode ser mantido, como se constata na prática, já que os juros pagos aos poupadores recuaram proporcionalmente mais.
Nesse sentido, chama a atenção no Brasil o fato das chamadas classes intermediárias de renda, particularmente a B, C e D, continuarem, em plena crise, aumentando os empréstimos em bancos e financeiras. Em julho, por exemplo, na faixa com rendimento médio mensal entre mil e dois mil reais o aumento foi de 8,1%; entre R$ 500,00 e R$ 1.000,00 por mês, a alta na demanda por crédito foi de 2,1%; e na faixa dos que ganham entre R$ 2.000,00 e R$ 5.000,00 a busca por empréstimos cresceu 0,9%.
E isso num mês em que o crédito pessoal junto aos bancos, em termos médios, esteve em 5,26% (67% ao ano) e o crédito pessoal junto às financeiras atingiu a 11,09% (186% ao ano). Pelo sim ou pelo não, o fato é que juros assim tão elevados ajudam a impedir um crescimento mais significativo da economia brasileira, pois freiam o investimento produtivo, aumentam a inadimplência e estimulam a especulação financeira.
Assim, a busca pelo lucro desmesurado do sistema financeiro, incluindo aí os bancos públicos, estimula as famílias e empresas a tomarem recurso emprestado mesmo quando o custo do mesmo é proibitivo, indicando uma clara tendência de futura inadimplência e até, literalmente, de falência.
Um atentado ao desenvolvimento do país!