A crise argentina não é de fato o motivo central do ataque que o real vem sofrendo nestas últimas semanas. A mesma, somada à crise política nacional, ao fraco desempenho da balança comercial brasileira e à diminuição do ritmo da economia norte-americana, apenas agudiza o problema.
No fundo, o real se deprecia neste momento porque o Brasil não consegue solucionar dois graves problemas econômicos históricos: o déficit crescente na balança de transações correntes e o déficit público.
Mesmo que neste último caso a situação esteja parcialmente encaminhada, vale destacar que tal encaminhamento se deu pelo aumento de impostos e tarifas e muito pouco pela diminuição nos gastos públicos. Ou seja, o Estado continua gastando mais do que arrecada e, portanto, trabalhando com déficit. Como os cortes de despesa não vêm ocorrendo a contento, face a um Congresso Nacional corporativista e estruturado em bancadas de interesse, o Estado necessita cada vez mais de arrecadação. Ora, isto compromete o futuro das reformas estruturais, a começar pela Reforma Tributária, tão importante para dar maior competitividade aos produtos brasileiros no exterior e, com isto, auxiliar na melhoria da balança comercial, sem necessidade de depreciar a moeda. Estamos, portanto, num círculo vicioso.
Quanto ao déficit em transações correntes, o fato de não conseguirmos superávit na balança comercial já nos posiciona mal. Além disso, nossas despesas com a balança de serviços (juros da dívida externa, serviços em geral e gastos com turismo no exterior) são muito maiores do que as receitas. Este déficit teria batido em 4,85% do PIB, em março passado, quando estudos mostram que o déficit sustentável, no longo prazo, deve girar ao redor de 2% (empiricamente chega a ser aceito um máximo de 3,5% do PIB).
Como não há poupança interna suficiente para cobrir este déficit, o Brasil precisa da poupança externa. A mesma pode vir sob a forma de empréstimos, geradores da dívida externa, investimentos especulativos (o conhecido capital volátil) e investimentos externos diretos produtivos. Nestes últimos tempos, a poupança externa tem vindo especialmente sob a forma de investimentos diretos. Estes cobriram o nosso déficit de transações correntes em 2000, porém, já não cobrirão a totalidade do mesmo neste ano 2001, segundo projeções.
Desta forma, a maneira mais rápida para conter essa trajetória de crescimento do déficit de transações correntes, é obter altos superávits na balança comercial. Ora, como não estamos conseguindo aumentar nossa competitividade, sobretudo pelo alto Custo Brasil (o sistema de impostos brasileiro aparece aqui como um dos graves problemas), cabe, num regime de câmbio flutuante, como atualmente é o nosso, à depreciação da moeda enquadrar as contas externas à nossa capacidade de pagamento do endividamento existente. Isto implica em dizer que, na ótica do governo, mesmo sendo bastante artificial a atual depreciação do real, o fato não é tão ruim como parece, mesmo com o risco calculado de incorporar os efeitos da depreciação na inflação interna. Ou seja, pode ser que o governo brasileiro, neste contexto, não faça muita força para trazer o real a uma relação mais correta com o dólar estadunidense. Pelo menos não no curto prazo.
Na prática, para evitarmos transtornos desta envergadura, precisaríamos aumentar a nossa produtividade. Ou seja, o nosso nível de vida depende de nossa capacidade produtiva. Se é verdade que a iniciativa privada vem realizando um enorme esforço para avançar neste sentido, também é verdade que o setor público está deixando a desejar neste quesito. A começar pelas questões tributárias, como já destacamos.
Assim, se é importante a atração de investimentos externos para cobrir o déficit em produtividade, também é essencial que o capital humano e o conhecimento tecnológico sejam privilegiados. Desta maneira, o crescimento de nossa economia e o seu conseqüente desenvolvimento, mais harmônico e sustentável, requer, dentre outras coisas, um importante investimento em educação e formação das pessoas; a proteção dos direitos de propriedade intelectual; a garantia de uma estabilidade política e econômica interna; uma participação conseqüente no processo de livre-comércio; um controle racional do crescimento demográfico; e um forte encorajamento à pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
Quanto mais tempo protelarmos estes encaminhamentos, mais tempo levaremos para sair do subdesenvolvimento, com todas as suas conseqüências já conhecidas.