Constatado que a crise mundial estaria, talvez, chegando ao fundo do poço, o mundo começa a se preparar para a saída da crise. Ou seja, aos poucos chega a hora dos “sobreviventes” à crise se organizarem e prepararem para largarem bem quando da nova arrancada da economia.
Isso vale para o Brasil igualmente, às voltas com seu eterno problema da impossibilidade política de realizar as reformas do Estado. Todavia, um novo problema surge no horizonte! O mesmo já vinha sendo alertado, porém, na ânsia de encaminhar soluções para a atual crise, poucos Estados (ou nenhum) deram atenção ao fato.
Para impedir que a economia mundial freasse ainda mais do que vem freando, os países, a começar pelos EUA, aumentaram seus gastos públicos, gerando mais déficits. Nesse sentido, o mundo se pergunta, com razão: “os déficits que se acumulam não estariam levando a economia para o caminho da emissão de moeda, portanto, da inflação?”.
Alguns sinais inquietantes se fazem presentes. Os países ditos mais frágeis, mesmo aqueles presentes na zona euro, pagam a partir de agora prêmios de risco muito altos, inéditos mesmo para os seus padrões. A Grécia, por exemplo, vem pagando seus empréstimos estatais mais de 2% acima dos pagos pela Alemanha. A Itália 1% a mais e assim por diante. Nos EUA, o déficit se acumula rapidamente, impressionando o mercado, podendo ultrapassar 13% do PIB em 2009, chegar aos 10% em 2010 e registrar uma média superior a 5% ao ano nos próximos 10 anos.
Nessas condições, para os países europeus, como o Banco Central Europeu não tem o direito de subscrever emissões de títulos públicos, o risco é de falência.
Já para os EUA o risco é de inflação, podendo atingir boa parte da economia mundial na pós-crise.
Os riscos de um novo Krach (II)
Ora, os rendimentos dos títulos públicos, junto aos países ricos, nunca estiveram tão baixos (os juros básicos estão próximos a zero), fato que leva os investidores (e especuladores) a darem mais atenção aos títulos privados.
Isso explica, em boa parte, a nova forte entrada de dólares em países como o Brasil, elevando o índice da Bovespa para níveis não esperados e sobrevalorizando o Real, a ponto do Banco Central brasileiro se obrigar a intervir no mercado cambial quase que diariamente, nos últimos dias, comprando dólares visando evitar que sua queda rompa o piso de R$ 2,00.
Como os países ricos encontram dificuldades em vender seus títulos, a geração de déficits públicos e orçamentários passa a ser a solução. Assim, enquanto durar a crise o risco de inflação ou de falência do sistema público não transparece.
O problema será na pós-crise, quando as condições econômicas voltarem ao normal, as taxas de juros sobre a dívida pública voltarem a aumentar, e um potencial krach no mercado de títulos vier a penalizar a retomada.
Cientes disso, os EUA estariam caminhando para um aumento de impostos a fim de evitar o retorno da inflação. A consequência será, mais uma vez, uma distribuição de renda desigual. Afinal, para continuar a consumir, apesar da renda em estagnação, a classe média e mesmo a mais pobre, inflada por discursos oficiais (veja o caso do Brasil) se endividou.
Quando a crise terminar, o aumento de impostos nos principais países do mundo, e particularmente nos EUA, deverá ser usado para tentar corrigir o endividamento do Estado, concentrando ainda mais a renda e penalizando novamente a sociedade.
Assim, a saída da crise pode estar reservando, à economia mundial, um custo elevado na medida em que os Estados gastaram mais do que podiam para enfrentá-la.