Há uma vontade imensa no Brasil de se colocar a crise econômico-financeira como “águas passadas”. Ora, mais uma vez corremos o risco de incorrer no erro de transformarmos desejos em realidade, esquecendo da razão. É verdade que boas notícias, em torno da recuperação econômica do mundo e do país, se fazem mais presentes, após dois anos de crise (em agosto de 2007 a crise estourou no setor financeiro, em setembro de 2008 a mesma atingiu a economia real definitivamente).
O último em data, no caso brasileiro, é o anúncio de um PIB positivo de 1,9% no segundo trimestre do ano, após dois trimestres negativos que caracterizaram a recessão técnica. Assim, é praticamente certo que a recessão atual ficou para trás. No entanto, a recuperação dos níveis de crescimento que atingíamos antes da crise, um pouco acima de 5% ao ano (no terceiro trimestre do ano passado, os então últimos quatro trimestres, ao serem comparados com os quatro trimestres anteriores, indicavam um crescimento de 6,3%), não deverá ocorrer tão cedo.
Neste 2009, por exemplo, o mesmo deverá ficar ao redor de 0% (na melhor das hipóteses entre 0% e 1% positivo, confirmando a tendência apontada ainda em meados do ano passado). Para 2010, tudo dependerá da recuperação internacional, que está sendo mais lenta e ainda longe de obter todas as garantias (basta ler a posição dos principais bancos centrais mundiais, reunidos no primeiro final de semana de setembro na Suíça), e da manutenção das injeções de recursos provenientes do Estado.
As eleições presidenciais do próximo ano deverão auxiliar na manutenção deste último ponto, além da necessidade natural que o mercado indica. Isso dito, um controle intenso sobre a economia deve ser mantido, e nada de gastos desmesurados apesar das incitações oficiais.
PIB cresce: crise no retrovisor? (II)
Dito de outra maneira, estamos ultrapassando a crise, porém, ela ainda não está totalmente no retrovisor. Porém, algumas avaliações já podem ser feitas. Das tantas lições que a mesma está deixando ao mundo tem-se, em primeiro lugar, que a economia continuará capitalista.
Isso porque não há modelo já testado que tenha sido melhor do que o da economia de mercado, com a constante busca de acumulação. Todavia, e em segundo lugar, fica evidente que o capital financeiro, especulativo, não pode ficar sem regulação. Assim, os bancos e financeiras devem passar por um controle mais agudo dos Estados.
Em terceiro lugar, não há capitalismo eficiente sem a presença de regras pelas quais os Estados possam administrar melhor a distribuição da renda gerada. No entanto, para que isso funcione os Estados igualmente devem apresentar estrutura eficiente e jamais cair em mãos de governos populistas. Esta governança mundial, que já estava clara antes da crise, apenas se consolidou agora. Em quarto lugar, a economia em geral deve ser mais cautelosa perante o risco.
Quando isso não ocorre, como novamente vem acontecendo na Bovespa (até a metade de setembro nossa bolsa já acumula ganhos de 56,8% em 2009, enquanto os ganhos das principais bolsas mundiais oscilam entre 12% e 18%), duros ajustes costumam surgir, fragilizando a economia.
Em quinto lugar, finalmente se aprendeu que menos impostos aquecem a economia sem reduzir arrecadação. Por fim, novos países ganham um novo status na economia internacional, com destaque aos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), mas também há um reforço das instituições tradicionais como o FMI, Banco Mundial e OMC. A crise passando, novo período de crescimento econômico virá.
Os países que souberam se estruturar na “tempestade” tirarão mais proveito dos novos tempos!