A boa notícia deste final de outubro veio com o anúncio do crescimento de 3,5% no PIB do 3º trimestre deste ano nos EUA. A primeira economia do mundo, após 12 meses, registra seu primeiro crescimento econômico, indicando uma possível tendência de saída permanente da recessão.
Todavia, como bem disse o presidente daquele país, ainda é preciso muito cuidado, pois diversos setores continuam a sofrer com o impacto negativo provocado pela maior crise mundial desde 1929 que, aliás, nesse dia 29/10 comemorou 80 anos.
Provavelmente seja sim o fim da recessão nos EUA, porém, o crescimento econômico, daqui em diante, ainda será pequeno. Em outras palavras, menor do que o registrado nesse último trimestre. Em segundo lugar, assim como no Brasil, o grande questionamento que fica diz respeito a capacidade da economia continuar melhorando sem o auxílio do recurso público.
Afinal, a recuperação agora ocorrida somente foi possível graças ao que chamamos de “muleta do Estado”, ou seja, os governos injetaram trilhões de dólares para frear a crise. Como tais recursos se esgotam, agora passa a ser a vez de o mercado retomar o seu lugar e continuar o empuxe.
E esse é um problema, pois nada garante que o mercado já esteja em condições de fazê-lo. No Brasil, por exemplo, o efeito do retorno ao normal, sobre os setores que até agora tiveram o privilégio da redução de impostos, nos dirá a tendência futura nesse sentido.
Outro aspecto fundamental nos EUA e mundo, e que igualmente há muito tempo se detecta em nosso país, é o enorme custo que o Estado teve para gerar “gordura” no mercado. Um custo feito sem, paralelamente, cortes de despesas. Pelo contrário, as despesas públicas aumentaram consideravelmente, fazendo crescer a dívida interna.
Sem austeridade fiscal, será difícil o mundo retomar um crescimento convincente e sustentável. E o Brasil, particularmente, já deveria estar mais atento a isso nesse momento.
Em síntese: a crise mundial vai ficando para trás, porém, ainda há muito para ser feito a fim de que a economia volte a caminhar com segurança, sem entrar em novas euforias suicidas que possam nos levar a recaídas agudas.
Mercosul, conflitos e a Venezuela
O Brasil está a um passo de aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul. Faltaria apenas a aprovação final do Congresso Nacional, além da aprovação do Paraguai. Pela importância da economia venezuelana e sua posição geoeconômica na América Latina, sua entrada no Mercosul está coerente com os objetivos iniciais do bloco, definidos ainda em 1991.
Todavia, o grande erro no processo é que o país vizinho está ingressando no Mercosul sem uma análise e respeito aos critérios econômicos do bloco e sim por questões políticas. Esse atropelo de prioridades coloca o bloco diante da possibilidade de novos choques ideológicos, particularmente porque a Venezuela vem sendo governada por um governo que está longe de ser democrático, além de ostentar uma aguda crise econômica interna.
Afora isso, não se pode esquecer que o Mercosul, com os seus quatro países originais (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) está atrasadíssimo em seu cronograma de implantação da abertura comercial interna. Não conseguimos ainda nem consolidar a chamada zona de livre-comércio.
Prova disso é o conflito comercial entre Brasil e Argentina, o qual trava o comércio e atrasa as duas economias, sem falar nos prejuízos ao próprio bloco. A recente represália brasileira às importações procedentes da Argentina culmina uma situação que vem de muito tempo, particularmente adotada pelos argentinos, desde que sua estabilização econômica, por suas próprias incompetências, ruiu.
O problema é que diante de tais ações protecionistas o Mercosul se vê cada dia mais enfraquecido e, assim, pelo lado dos benefícios econômicos, de nada adianta incluir novos países.
Especulação financeira continua
O movimento da BM&F/Bovespa nesta última semana de outubro comprovou o que já se sabia. Nossa bolsa continua extremamente especulativa, com forte entrada de dólares que chegam em busca de ganhos fáceis.
A queda de quase 5% num dia e a recuperação de quase 6% no dia seguinte, mesmo que haja algumas notícias econômicas importantes (como a recuperação do PIB dos EUA) justificam tal realidade. Além disso, nossa bolsa, até o final de outubro cresceu mais de 60% enquanto as principais bolsas do mundo ficaram bem aquém (Wall Street com apenas 14%, Japão 15,5%, Inglaterra 19%, Alemanha 14%...).
Ou seja, tal realidade gera um desequilíbrio na economia que poderá se traduzir pelo aumento futuro da inflação, mesmo que o Banco Central brasileiro venha comprando dólares e aumentando suas reservas. Além disso, como alertamos no comentário passado, a taxa de 2% sobre o IOF nenhum grande resultado teve na contenção de dinheiro externo.
Enfim, o desequilíbrio de tal quadro, além de logo mais levar a um ajuste pesado na Bovespa, derrubando as cotações por um tempo mais longo, igualmente deverá levar o Brasil a retomar o aumento dos juros (Selic) em 2010, algo, aliás, que o mercado já está precificando nesse momento.