Contrariando expectativas iniciais, os preços da soja no mercado brasileiro subiram até razoavelmente nestes últimos 30 dias. Após saírem de R$ 44,00/saco no início de agosto de 2009, os preços da oleaginosa chegaram a R$ 41,29 na primeira semana de janeiro passado, recuando fortemente a partir de então para atingir o piso de R$ 32,74/saco na primeira semana de maio (tomando-se o preço médio de balcão e o mercado gaúcho como referência). Desde então passaram a oscilar na casa dos R$ 33,00 a R$ 34,00, se elevando para R$ 36,00/saco no final de julho e início de agosto. Este ganho de 10% entre maio e agosto permitiu o saco do produto, pago ao produtor gaúcho no balcão, retornar ao patamar do final de fevereiro passado. Quais são os motivos centrais que poderiam estar provocando tal comportamento? Três deles podem aqui ser enumerados. O primeiro se encontra na Bolsa de Chicago. O bushel de soja ganhou um dólar entre os dias 1º de julho e 2 de agosto, passando de US$ 9,53 para US$ 10,53 no período, considerando o primeiro mês cotado. A razão principal para isso é particularmente, e mais uma vez, de natureza especulativa. Os Fundos e o capital financeiro especulativo em geral voltaram a apostar nos contratos de commodities agrícolas, inflacionando o mercado no curto prazo. Ligado a isso está o segundo motivo. Os preços da soja teriam sido influenciados pela disparada, no mesmo período, dos preços do trigo naquela Bolsa. O bushel do cereal pulou de US$ 4,84 para US$ 6,93, nesse caso tendo como razão aparente a constatação de quebras nas safras da Rússia e China, além de outros países. Estranhamente, os preços do milho em Chicago, no período, pouco se alteraram, passando de US$ 3,65 para R$ 3,90 nos 30 dias considerados. Isso deixa dúvidas no ar sobre o futuro de tal comportamento.
Por que o Preço da Soja Subiu? (II)
Um terceiro motivo, este sim de ordem concreta na economia real, está na excelente recuperação dos prêmios pagos nos portos brasileiros. No início de maio passado, por exemplo, o porto de Rio Grande pagava em média entre 25 a 30 centavos de dólar por bushel de prêmio para a soja. Nesses primeiros dias de agosto o mesmo está entre US$ 1,25 e US$ 1,30/bushel. Temos aí, em termos médios, um aumento de 364% entre maio e agosto. A forte demanda chinesa, associada a uma comercialização mais lenta por parte dos produtores brasileiros, seriam as causas de tal comportamento, embora se note um aumento considerável nos prêmios nos demais portos mundiais. E isso tudo num momento em que a safra mundial bateu um recorde (259,7 milhões de toneladas no último ano, com os estoques finais pulando para 65,4 milhões ou 50% acima do registrado no ano anterior). Tal realidade faz cogitar que estamos diante de uma incongruência de mercado que, como tal, pode ser de curta duração. Afinal, mesmo que a China tenha aumentado suas importações em 17% no último ano e que se projete um novo aumento de 4% para 2010/11, isso é muito pouco diante de uma safra estadunidense que pode chegar a 92 milhões de toneladas daqui 45 dias (embora se especule com o clima, o mesmo não estaria ruim nos EUA) e se indique um possível aumento de área semeada de 2% no Brasil, com a produção final em 2011 podendo chegar a 68 milhões de toneladas, se o clima deixar. Tanto é verdade que o próprio USDA, embora estime uma produção mundial menor em 8 milhões de toneladas para o próximo ano, eleva os estoques finais para 67,8 milhões em 2010/11 (relatório de julho 2010). Assim, é justo que os produtores aproveitem a melhoria nos atuais preços, porém, cuidado com as surpresas negativas quando a especulação diminuir, a partir da colheita nos EUA.