O ano de 2023 foi marcado por inúmeros e intensos protestos de agricultores europeus, que se intensificaram em janeiro de 2024. Sem a intenção de esgotar o assunto, vamos a alguns exemplos:
- Os primeiros protestos ocorreram na Holanda. Os agricultores protestaram contra um anúncio de que o governo precisaria tomar medidas drásticas para reduzir as emissões de óxidos de nitrogênio, responsável por parcela ponderável da poluição de terras, água e ar e das emissões de gases de efeito estufa. A proposta afeta diretamente a produção agrícola e pecuária, que utiliza o nitrogênio como fertilizante, o qual também está presente nos dejetos das criações de animais;
- A Bélgica, que compartilha dos mesmos sistemas de produção da Holanda, também foi palco de inúmeros protestos de agricultores, que se dizem inviabilizados caso haja controle do uso de nitrogênio;
- Os agricultores franceses protestaram contra a excessiva burocratização, o exagero de normas incidentes sobre as atividades agrícolas, o atraso no pagamento de subsídios, a implantação de novas taxas e a importação de produtos agrícolas;
- Agricultores da Bulgária protestaram depois que o governo suspendeu a proibição de importação de produtos alimentícios da Ucrânia, reclamando que a medida causará um influxo que reduzirá os preços para os produtores locais. Também argumentaram que a proibição priva o governo de receitas fiscais, e que, ao mesmo tempo, causará aumento dos preços dos alimentos;
- Os agricultores da Alemanha protestam contra os planos para reduzir os subsídios ao diesel e os incentivos fiscais para veículos e máquinas agrícolas, como parte dos cortes de 900 milhões de euros para o apoio ao setor agrícola, em 2024. Os agricultores afirmam que os cortes ameaçarão os seus meios de subsistência e a competitividade da agricultura alemã;
- Em todos os protestos, sempre um pedido incisivo para que a União Europeia não firme o acordo comercial com o Mercosul, que facilitaria a exportação de produtos agrícolas dos países do Mercosul para a Europa
Alternativa correta
Um jornal europeu, no bojo de um matéria sobre os protestos dos agricultores se multiplicando e radicalizando no continente, pediu que o leitor marcasse a alternativa correta sobre a razão dos protestos:
(1) Para manter subsídios, agricultores estão europeus dispostos a brigar pesado;
(2) Para conter concentração de poder nas mãos dos intermediários (cada vez mais digitais e oligopolizados), só sobrou o protesto;
(3) Pra resistir aos efeitos econômicos da agenda da sustentabilidade da União Europeia, os agricultores precisam protestar;
(4) Para sobreviver, agricultores europeus levam a briga às últimas consequências, pois sabem que, na agenda política da moda, são vistos e tratados como a escória da sociedade, a fonte fundamental dos problemas do planeta.
Do meu ponto de vista, as quatro alternativas estão corretas. Podem não se aplicar todas, ao mesmo tempo, para cada protesto, mas uma ou mais delas estão presentes em cada um deles.
Por que os agricultores brasileiros não protestam?
Deixando de lado a índole não belicosa do povo brasileiro, não existem razões objetivas para protestos de agricultores, como acontece na Europa. Senão vejamos.
O agricultor europeu é movido a subsídios, o que ocorre há três ou quatro gerações. Há diversas causas para este fato, que se modificaram ao longo do tempo e que, atualmente, tem foco assestado nos altos custos de produção na Europa, o que limita a competividade da sua agricultura, frente a outros países de agricultura mais competitiva – e o Brasil é um exemplo perfeito! Estimo que, com competição aberta e sem protecionismo, os agricultores europeus não resistem a cinco anos de competição com os brasileiros.
O agricultor brasileiro praticamente não recebe – e não precisa de – subsídios! Com exceção de algumas linhas do Pronaf e da subvenção ao seguro agrícola, pouco há para retirar. Ele é competitivo pelo seu próprio esforço e pela sua capacidade de produção e de gestão. Logo, não necessita protestar por subsídios.


