A taxa básica de juros no Brasil, conhecida como Selic, deverá iniciar um novo processo de alta a partir do dia 28 de abril, quando termina mais uma reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Após 18 meses de estabilização e recuos (em setembro de 2008 a mesma bateu em 13,75% anuais, chegando a 8,75% em julho de 2009, se estabilizando desde então nesse percentual), a taxa básica sofrerá um aumento, provavelmente entre 0,50 e um ponto percentual, a partir deste final de abril, podendo fechar o ano ao redor de 11,75% anuais como se vinha projetando há alguns meses.
Estes são os fatos! A questão agora é entendermos o porquê deste aumento quando, em princípio, o ideal seria manter os juros em baixa para manter a dinâmica de recuperação da economia. Ocorre que todos os países, ao colocarem dinheiro público na economia para conter a crise econômica mundial, evitaram o pior (uns mais outros menos). Porém, o aquecimento forçado da economia levou a uma demanda maior que, esgotados os estoques existentes, passou a puxar os preços nacionais para cima. A China já há algum tempo aumenta suas taxas básicas de juros, por exemplo.
Os países desenvolvidos, onde a crise persiste e até piora em algumas regiões, por enquanto, mantêm os juros reduzidos (próximos a zero por cento anualmente). Afinal o juro é um instrumento de política monetária decisivo, usado pelos Bancos Centrais, justamente para controlar a inflação e evitar que esse flagelo socioeconômico se abata sobre o país.
Porque o juro deve subir (II)
No caso brasileiro, o empuxe da demanda, estimulada pelo Estado, como era previsível, começa a provocar fortes aumentos nos índices inflacionários para 2010. O IPCA, índice oficial no país, nos primeiros três meses do ano, já acumula alta de 2,06%.
Ora, nesse ritmo, o mesmo poderá terminar o ano largamente acima da meta pré-estabelecida, que é de 4,5%. Por enquanto, o acumulado anual (abril/09 a março/10) já está em 5,17%. Outro indicativo importante: o IGP-M, índice muito usado na economia, que havia terminado 2009 no negativo pela primeira vez em sua história (-1,72%) já está com 2,78% no primeiro trimestre de 2010.
Tal comportamento é preocupante considerando uma economia estável como a nossa. E a ideia de aceitar um pouco de inflação além do limite estabelecido, visando não interromper uma retomada econômica, não é bem-vinda. Afinal, a inflação é um aumento persistente e generalizado no índice de preços, atingindo com mais gravidade as classes menos favorecidas.
Com o agravante de não ser fácil de contê-la, depois que se inicia, e que a mesma atua de forma desigual nos setores. Nesse momento, por exemplo, as diferentes cestas básicas calculadas no país demonstram, na média, um aumento muito superior à inflação oficial. Em Porto Alegre, a cesta básica já aumentou 7,8% nesse primeiro trimestre de 2010.
Assim, deixemos o Banco Central, via Copom, atuar, usando da prerrogativa de certa independência que possui, aumentando os juros. É preferível um pouco menos de crescimento econômico do que muito mais de inflação!