Contrariando a maioria das expectativas, os preços da soja em Chicago, e por consequência no mercado interno brasileiro, subiram razoavelmente a partir de julho passado. Afinal, diante de uma safra recorde nos EUA, estimada agora acima de 94 milhões de toneladas, e que já vem sendo colhida, e diante de estoques finais mundiais importantes e estáveis para 2010/11 (o USDA indica 63,6 milhões de toneladas, contra 62,8 milhões no ano anterior), as cotações em Chicago já deveriam ter recuado neste final de setembro. Todavia, mais uma vez, repetindo o ocorrido particularmente em 2008, não é a economia real que está puxando os preços da soja naquela Bolsa. Tratase de mais um arroubo especulativo do capital financeiro, que ataca em todas as commodities mundiais. No caso dos grãos, aproveitando-se de uma quebra pontual no trigo da Rússia e Ucrânia para usar como justificativa. Com isso, em reais, a soja gaúcha no balcão, por exemplo, saiu de R$ 33,86/saco, na média da primeira semana de julho, para R$ 39,00/saco no final de setembro. Um ganho de 15,2% no período. E isso, mesmo com o câmbio indicando nova valorização do Real, com o mesmo chegando a R$ 1,71 por dólar. Enquanto isso, Chicago pulava de US$ 9,53/bushel no primeiro dia de julho, para US$ 11,28/bushel no dia 27 de setembro. Um ganho de 18,4% no período. Lembramos que a média histórica em Chicago (38 anos) é de US$ 6,59/bushel. Nesse contexto, ganhou nova dimensão a projeção de preços para a futura safra brasileira.
Preços da Soja para 2011 (II)
Obviamente, como ninguém tem “a bola de cristal”, tratase aqui de construirmos apenas uma tendência, com base nos dados existentes hoje, junto às variáveis conhecidas. Para a formação do preço da soja ao produtor no interior, quatro grandes variáveis são importantes: os preços em Chicago; o câmbio no Brasil; o prêmio no porto; e as despesas de comercialização e margens descontadas pelas empresas compradoras, do valor bruto de Chicago (o que é normal, diga-se de passagem). Duas delas são relativamente conhecidas: o prêmio no porto, no momento de nossa colheita, recua historicamente para níveis ao redor de 25 centavos de dólar por bushel; e a percentagem de descontos, na média de um ano, tem ficado ao redor de 18%. Assim, nos resta, particularmente, as duas outras variáveis. Se Chicago mantiver o valor atual para maio/11, que é de US$ 11,29/bushel, e o câmbio ficar nos atuais níveis (R$ 1,71), os preços da soja em abril/maio poderão oscilar ao redor de R$ 35,50/saco. Caso os descontos forem menores, com as empresas sacrificando suas margens, o preço poderá chegar ao redor de R$ 38,00. Agora, o USDA aponta uma média em Chicago, para 2010/11 em US$ 9,90/bushel, enquanto o câmbio no Brasil pode retornar à casa de R$ 1,85 em abril/maio. Nessas condições, temos outro cenário, com preços podendo oscilar entre R$ 34,00 e R$ 36,00 na colheita gaúcha, no balcão. Pelo sim ou pelo não, em termos médios, preços melhores (R$ 36,00/saco) do que os praticados em abril/maio passado, cuja média ficou ao redor de R$ 33,00/saco no mercado gaúcho.