A Bolsa de Chicago registrou, neste último dia 15/04, seu mais alto preço para a soja desde meados de janeiro passado, considerando o primeiro mês cotado. Tal preço fechou este dia em US$ 9,84/bushel, rompendo a barreira de resistência existente ao redor de US$ 9,75.
Todavia, tal comportamento traduz apenas mais um acesso especulativo dos Fundos e do capital financeiro em geral, do que propriamente razões de oferta e demanda ligadas à economia real. Os dois últimos relatórios dos EUA confirmam isso. O primeiro, de intenção de plantio, divulgado no dia 31/03, indicou um aumento de área de até 500.000 hectares, podendo levar a produção daquele país acima do recorde de 91,4 milhões de toneladas conseguido nesta última safra.
O segundo, de oferta e demanda, divulgado no dia 09/04, confirmou um aumento na produção e nos estoques mundiais do produto. Sobre os EUA, o dito relatório, além de manter a produção acima apontada, informa estoques finais em 2009/10 ao redor de 5,17 milhões de toneladas, contra 3,76 milhões no ano anterior.
Além disso, o patamar de preços para o restante do ano ficaria entre US$ 9,20 e US$ 9,70/bushel.
Preços em Chicago não se justificam (II)
Mas o principal do relatório está no contexto mundial. A safra global de soja, em 2009/10, deverá ficar no recorde de 257,5 milhões de toneladas. Esse volume é 45,7 milhões de toneladas acima do registrado no ano anterior. Já os estoques finais mundiais crescem para 63 milhões de toneladas, ganhando cerca de 10 milhões sobre o ano anterior.
Nessas condições, salvo uma especulação persistente e sem coerência, os preços internacionais da soja devem voltar para níveis mais baixos. O mercado aposta em nível de resistência ao redor de US$ 8,70/bushel, ou seja, um pouco mais de um dólar abaixo desse preço obtido na quinta-feira (15) em Chicago.
E antes de qualquer mal entendido, a reação em reais praticamente não ocorre porque, na outra ponta, o câmbio acabou compensando o aumento em Chicago, ao trazer o Real novamente para a casa do R$ 1,74 por dólar, contra R$ 1,88 no início de fevereiro.
Assim, os preços da soja em reais se estabilizam ao redor de R$ 33,00/saco no balcão, com probabilidade de diminuírem para cerca de R$ 30,00 na medida em que as empresas compradoras decidirem recuperar suas margens, praticamente zeradas no momento.
Balança comercial: saldo continua recuando
Os resultados da balança comercial brasileira, até o dia 11 de abril, indicam exportações de US$ 43,9 bilhões e importações de US$ 42,2 bilhões. Isso resulta em um saldo comercial positivo de apenas US$ 1,68 bilhão no período.
O saldo apenas do mês de março ficou em US$ 668 milhões, representando 78,6% abaixo do registrado no mesmo mês de 2009 (momento do auge da crise econômica mundial). Todavia, em relação a fevereiro de 2010, o saldo de março foi 18,3% melhor.
Entretanto, no acumulado do ano (janeiro até 11 de abril) o saldo comercial de 2010 é 61,1% menor do que o registrado no mesmo período de 2009, quando alcançou US$ 4,32 bilhões. Ou seja, proporcionalmente estamos comprando muito mais do que vendendo ao exterior nesse ano, invertendo a tendência iniciada há 10 anos.
Nesse ritmo, 2010 deverá terminar com um saldo ao redor de apenas US$ 11 bilhões, ou seja, o menor saldo desde 2001. Lembramos que em 2006 o país alcançou um saldo comercial recorde, de US$ 46,09 bilhões. Tal situação parece estar provocando, finalmente, uma reação do governo.
Balança comercial e tributos
O governo começa a olhar na direção certa. Visando melhorar a competitividade do produto brasileiro exportado, começa a pensar na possibilidade de reduzir a tributação sobre os produtos enviados ao exterior.
Efetivamente, diante de um modelo cambial flutuante, que é o mais apropriado no momento, o qual trouxe nossa moeda para o nível sobrevalorizado de R$ 1,74 por dólar nessa semana, o saldo da balança comercial brasileira deverá se reduzir pela metade neste ano, em relação a 2009.
Isso obviamente preocupa, pois o Brasil necessita das vendas externas para puxar a economia, já que o mercado interno poderá responder com menor intensidade em 2010, diante do aumento dos preços internos e da retirada das isenções de impostos. Assim, antes que o governo seja levado a mexer no câmbio, o que seria um erro, reduzir os tributos à exportação é o melhor caminho para gerar, no curto prazo, maior competitividade aos nossos produtos.
Esperemos que o mesmo passe efetivamente à ação e não fique apenas na intenção.