O ano de 2009 terminou e trouxe com ele uma notícia que já se imaginava, confirmando nossa última coluna de dezembro: a recessão da economia brasileira, causada pela crise mundial, entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, foi a mais forte, para um período trimestral, nos últimos 28 anos.
O recuo médio de 1,9% por trimestre, registrado no período, foi mais do que o dobro da redução média trimestral registrada na mais longa recessão brasileira, verificada entre o terceiro trimestre de 1989 e o primeiro trimestre de 1992, ou seja, 11 trimestres. Nesse período o recuo médio trimestral foi de 0,7%.
A melhor situação ocorrida no segundo, terceiro e quarto trimestre de 2009 não evitou que a economia nacional tenha terminado o ano com um PIB ao redor de 0%. Ou seja, embora o país tenha enfrentado bem a crise, a mesma atingiu fortemente nossa economia, desmentindo as declarações políticas mais ufanistas.
Agora, a questão é 2010! A partir de dados divulgados pela FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos), com base em pesquisa realizada com 31 instituições financeiras, o PIB nacional será de 5,1%, com o PIB industrial alcançando 7,6%; a inflação medida pelo IPCA ficará em 4,5%; a Selic em dezembro próximo atingirá 10,5%; o saldo da balança comercial atinge a US$ 11 bilhões; o déficit de transações correntes bate em US$ 45,1 bilhões; o câmbio termina o ano em R$ 1,76; e o investimento externo direto (produtivo) chegaria a US$ 36 bilhões.
Para nós, o Produto Interno Bruto somente chegará a 5% em 2010 caso o governo continue injetando recursos públicos na economia, incluindo a continuidade das isenções setoriais de impostos. Isso justificaria o crescimento industrial projetado.
Isso porque para haver crescimento tem-se que produzir.
Projeções para 2010 (II)
Para se produzir tem-se que vender. Para se vender, é preciso ter mercado com liquidez (crédito). Ora, o mercado externo irá se recuperar nesse novo ano, porém, ainda de forma lenta. Portanto, nossas exportações não crescerão o suficiente para justificar o PIB projetado.
Os números previstos para o saldo da balança comercial (metade do saldo de 2009, o qual já teria sido o mais baixo dos últimos sete anos) e para o câmbio (o Real continuaria sobrevalorizado, nos mesmos níveis do final de 2009) comprovam isso. Assim, o crescimento da economia dependerá do mercado interno que, aliás, foi o grande alavancador da economia nacional no segundo semestre. Mesmo com o forte aumento do salário mínimo, agora em R$ 510,00; com a manutenção dos programas assistenciais, tipo Bolsa Família; e com os maiores gastos estatais por estarmos em ano eleitoral, o mercado interno somente manterá o ritmo de consumo com a manutenção do apoio oficial.
O problema é que tal apoio se encontra no limite, já que o Estado não faz economias de gastos ao mesmo tempo em que reduz a receita, e a dívida interna cresce rapidamente. Um segundo problema é que o consumo interno está gerando forte endividamento das famílias, com potencial inadimplência das mesmas.
Assim, o PIB poderá ser menor e/ou os riscos de novas crises tendem a aumentar. Por outro lado, a pressão consumidora poderá levar a um aumento de preços, fato que obrigará o governo a aumentar os juros, podendo mesmo a Selic chegar a 10,75% no final do ano. Todavia, o pior cenário seria, por questões eleitorais, o governo deixar escapar a inflação para não aumentar os juros.
Aí o desastre futuro cairá no colo do novo presidente e da população pelos próximos anos. Basta ver a situação atual da Argentina, da Venezuela, do Equador e alguns outros países vizinhos!