Pelo menos no curto prazo, as surpresas procedentes do último relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), divulgado no dia 08/10, reverteram a tendência de baixa nos preços internacionais da soja, milho e trigo. O relatório trouxe para baixo a produção destes três grãos, nos EUA. No caso da soja, a estimativa agora é de uma produção de 92,76 milhões de toneladas, com um recuo de dois milhões de toneladas em relação a setembro. Os estoques finais estadunidenses caíram para 7,2 milhões de toneladas em 2010/11, perdendo 2,3 milhões de toneladas em relação ao relatório de setembro. Assim, mesmo que a produção mundial tenha sido aumentada para 255,3 milhões de toneladas, os estoques finais mundiais recuaram 2,2 milhões de toneladas, se estabelecendo em 61,4 milhões de toneladas. Diante disso, o capital financeiro especulativo, que tem tomado de assalto as bolsas mundiais de commodities, encontrou novos motivos para elevar as cotações da oleaginosa em Chicago. Assim, desde o anúncio do relatório o bushel de soja naquela bolsa não parou de subir, tendo alcançado US$ 11,88 no dia 14/10 para o primeiro mês cotado. Para o mês futuro de maio/11 o fechamento voltou a ultrapassar os US$ 12,00, batendo em US$ 12,08. Esses valores não eram vistos desde meados de agosto de 2009. Portanto, há mais de um ano! O trigo chegou a bater em US$ 7,19/bushel e o milho em US$ 5,79/bushel durante a mesma semana. Para se ter uma ideia do aumento repentino e pouco esperado na soja, no primeiro dia de julho passado, o bushel estava cotado a US$ 9,53. Ou seja, em três meses e meio a soja ganhou aproximadamente US$ 2,30/bushel ou exatos 24,6% em Chicago. Algo desproporcional diante de uma economia estadunidense que funciona hoje com uma inflação ao redor de 1% ao ano. Pelo sim ou pelo não, o fato é que tal reversão de tendência trouxe os preços da soja, em reais, para níveis bem mais interessantes, com a média gaúcha no balcão se aproximando dos R$ 40,00/saco, algo que não era visto há praticamente um ano. E isso que o câmbio continua sobrevalorizando o real, que chegou a trabalhar, em alguns momentos da semana que passou, abaixo de R$ 1,65.
Lucratividade dos produtores de soja tende a ser positiva
Mesmo sabendo que o atual movimento altista em Chicago pode novamente sofrer um revés, já que ele está muito calcado na especulação financeira, o comportamento do mercado confirma um quadro que já vinha se desenhando há algumas semanas. Na pior das hipóteses (especialmente pelo lado cambial), os preços da soja no mercado gaúcho e brasileiro irão repetir a performance deste ano, no momento de nossa colheita. Na hipótese normal, os mesmos tendem a ser de dois a três reais por saco melhores, no momento da colheita. E, numa hipótese mais otimista, agora alimentada pelo atual comportamento de Chicago, podemos trabalhar com preços ao redor de R$ 39,00 a R$ 40,00/saco quando da colheita. Isso tudo esperando que não haja frustrações de safra provocadas pelo anunciado fenômeno La Niña. Nesse momento, por exemplo, apenas considerando o novo preço médio esperado pelo USDA para Chicago em 2010/11 (US$ 10,75/bushel), pode-se construir uma tendência de preços no balcão gaúcho variando (dependendo do câmbio) entre R$ 33,50 e R$ 37,50/saco no auge de nossa colheita. Agora, se Chicago permanecer ao redor de US$ 11,50/bushel, os preços locais podem girar entre R$ 35,50 e R$ 40,00/saco. Nessas condições, a lucratividade dos produtores de soja, finalmente, poderá ser realmente positiva na próxima safra. Estudos realizados nesse sentido indicam que o Paraná pode obter uma lucratividade, levando-se em conta o custo total, entre 6% e 15% dependendo do comportamento de Chicago. No Mato Grosso a mesma giraria entre -1% e 15%. (cf. Safras & Mercado) Por sua vez, no Rio Grande do Sul, poderíamos ter algo entre 3% e 10% positivos. Resta esperar, portanto, que haja efetivamente produção, e que a nova safra não venha frustrada, pois nesse caso não há preço que compense quebra de safra.
A guerra cambial avança
O passar das semanas confirma nossas análises de que o câmbio, nos últimos anos, tem sido uma forte arma comercial para determinados países, a começar pelos EUA, que continua alimentando a desvalorização do dólar. Como a China não quis pagar a conta comercial de tal movimento, igualmente manteve um sistema de desvalorização do Yuan, particularmente a partir de 2008. Esse confronto, que vem penalizando o mundo inteiro, atinge em cheio a economia brasileira. O Real não pára de se valorizar, tendo chegado a R$ 1,649 em alguns momentos desta última semana. Esta situação está forçando os diferentes países do mundo a reagirem. Há uma grande expectativa, nesse sentido, em torno da reunião do G20, marcada para novembro na Coreia do Sul. Um acordo poderá dali surgir, alterando o quadro cambial internacional. Enquanto isso não acontece, o mundo está nas mãos dos EUA, que não esboçam reação em defesa de sua moeda, pois isto lhe convém, e da China, que não tem interesse em perder mercado valorizando em demasia sua moeda, apesar das pressões mundiais. Para tanto, os chineses estão muito preparados, pois constroem uma reserva cambial extraordinária, que atinge hoje a US$ 2,65 trilhões (o Brasil chegou a US$ 280 bilhões nesse momento). Em outra palavras, se não houver uma cooperação internacional, estilo o acordo do Plaza Hotel de 1985, o mundo avançará na guerra cambial, e entrará em um novo estágio da crise mundial que eclodiu em agosto de 2007.