Chama a atenção de muitos o forte crescimento da economia argentina nestes últimos anos. Alguns chegam a considerar que isto se deve a um modelo menos rígido de gestão pública e controle da economia. Daí a avançarem a proposta de que o Brasil deva seguir o mesmo caminho é um passo. Todavia, a realidade é bem diferente e muita ressalva a este crescimento econômico argentino merece destaque. Os fatos: após uma enorme crise, entre 1999 e 2002, quando o PIB recuou 21% no período, a Argentina se recupera e alcança um crescimento, em 2006 e pelo quarto ano consecutivo, a um ritmo superior a 8,5% anuais (mesmo sem levar em conta diversos preceitos ortodoxos). Este crescimento já ultrapassou a categoria de mera recuperação cíclica, dentro de uma solidez das contas externas e de inflação alta, porém, não em disparada. Paralelamente, houve calote da dívida externa, que impôs duras perdas aos credores; houve uma virtual implosão do sistema financeiro e movimentos de reestatização. Todavia, o relativo sucesso está no fato de que houve bom senso na área vital da política fiscal, com o governo optando pelo pragmatismo, promovendo superávits nominais no orçamento e eliminação de qualquer necessidade de financiamento do setor público. Assim, hoje o país recompra liquidamente sua dívida pública. Por sua vez, a política monetária igualmente foi sensata logo após o colapso, reduzindo drasticamente a inflação de 41% em 2001 para 3,7% em 2002. Causas da recuperação: refluxo cíclico depois de um recuo de 21% do PIB; e volta de capitais alojados no exterior, beneficiados pela desvalorização e atraídos pelas oportunidades de consumo e investimento numa economia em recuperação. Ao mesmo tempo, algumas medidas heterodoxas acabaram funcionando.
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